
LIVING COLOUR
Via Funchal, São Paulo
15/10/2009
Texto Eduardo Abreu
Fotos Pati Patah
Que a indústria musical anda de pernas para o ar você já está cansado de saber. Pois só isso para explicar que o Living Colour – ganhador de Grammies, discos de ouro, headliner de festivais e afilhado dos Stones – tenha lançado seu novo álbum pela Megaforce Records, um famoso selo de metal dos anos 80.
Não que seja um desprestígio, mas o fato diz muito sobre o mercado do disco e as manobras que artistas jovens ou veteranos fazem para manter-se na ativa.
No domingo, dia 11, me encontrei com os integrantes do Living Colour após uma sessão de autógrafos em uma megastore em São Paulo. Will Calhoun, o reverenciado baterista, revelou um pouco sobre o momento: “Estamos reconstruindo nosso público na América. A Europa é um grande mercado para nós”.
Mas o Brasil tem seu lugar nessa história e é terra sagrada nas turnês da banda. No auge da carreira, fizeram um show apoteótico por aqui, no então importante festival Hollywood Rock. Retornaram pouco depois – em um show sold out no Palace, em São Paulo – para divulgar o álbum Stain. “Life is beautiful”, repete Calhoun toda vez que menciona uma visita ao Brasil.
Só que a banda acabou abruptamente e saiu de cena por cerca de 5 anos. “Eu sei que partimos alguns corações, mas não foi minha culpa”, diz Will, sorrindo. “Eu não fui a favor (da separação da banda), mas Vernon estava se divorciando na época e foi um período difícil para ele que é um cara muito sentimental”.
O rumor de que a volta da banda aconteceu após um puxão de orelhas do descobridor, fã e produtor Mick Jagger no guitarrista Vernon Reid tem o endosso moral de Calhoun. “Você tem que confiar nos Stones”.
A afinidade entre as bandas, aliás, permanece a mesma de 20 e tantos anos atrás. “Mantemos contato com eles. Especialmente Charlie Watts. E Doug, você sabe, tocou com Mick e os Stones. Também gravei com o Ron Wood”.
Essa volta do grupo no início do milênio já resultou em três visitas ao Brasil - 2004, 2007 e neste mês de outubro. O primeiro show da série fez parte da turnê do disco CollideOscope, embora o público, com o hiato de uma década, estivesse sedento por hits. A segunda passagem neste século 21 - quinta no total - foi um mero pretexto para matar saudades de ambas as partes. Mas agora, em 2009, a proposta é divulgar amplamente o exuberante The Chair in the Doorway.
Entre um café e um donut, Vernon Reid – que parece bem mais jovem que seus 51 anos – contou um pouco sobre o novo disco. “Se você gostou de CollideOscope, vai gostar (de The Chair). Ou melhor, se você gosta de tudo que já gravamos, vai curtir. Tem a minha palavra”. E prossegue: “Pretendemos começar o show tocando uma música de cada álbum. Uma do Vivid, outra do Time’s Up, uma do Stain e do CollideOscope. Depois faremos uma sequência de canções do novo álbum”.
E foi isso que o público que compareceu ao Via Funchal em número semelhante ao show de 2007 pôde conferir. A abertura com a quente “Middle Man”, seguida pela porrada “Time’s Up”, a pesada “Go Away” e a ainda mais pesada “Sacred Ground”.

Vernon, que se apresentou com uma combinação descolada de paletó xadrez, chapéu e óculos vermelhos, retificou o que tinha antecipado ao blog. O segmento do novo álbum dominou a parte central do show. Foram executadas “Burned Bridges”, “Method”, “Decadance”, o blues “Bless Those” e o que seria o hit do verão 2010 se o mundo ainda tivesse juízo: a ensolarada “Behind the Sun”.
No intervalo entre uma e outra faixa do repertório clássico, a banda apresentou vinhetas instrumentais cheias do improviso jazzístico que foi incorporado aos seus shows ao longo do tempo.
O guitarrista mostrava ali sua faceta “Masque” – a ótima banda paralela da qual é mentor e que esteve no Brasil há alguns anos. “Estamos preparando um novo disco do Masque. Inclusive, vai ter uma regravação do My Bloody Valentine. Sabe, essa é uma das bandas que nunca consegui assistir ao vivo. A outra banda que nunca consegui ver é o Radiohead”.
Pois parece ser essa cabeça rockeira e jazzista de Reid um pouco do segredo da alquimia sonora do Living Colour.
Mas seus colegas de bandas disputam igualmente a atenção. Doug Wimbish, como de costume, deslizou pelo palco extraindo sons que não costumam ser associados a um contrabaixo convencional. Durante a interpretação de “Bi”, do álbum Stain, seu primeiro com o Living Colour, Doug foi literalmente pra galera. O baixista – que já emprestou suas habilidades para gente como Annie Lennox, Depeche Mode e Madonna – solou no meio do público, brincando com o tema de “O Poderoso Chefão” e o famoso “Olé, olé, olé”, a canção de arquibancada.
Corey preserva o pulmão que impressiou os 7.000 presentes no antológico show de 1992. Nos primeiros versos de “Open Letter (to a Landlord)”, o cantor usa e abusa de todo seu espantoso recurso vocal. Como em 2007, quando escondeu o microfone e ainda assim sua voz era claramente ouvida de qualquer lugar do Via Funchal. A intepretação é comovente e arranca aplausos entusiasmados do público. A letra – que trata da desapropriação de imóveis em um bairro pobre – parece atemporal e colabora para o teor emotivo da interpretação.

“Eu sou do Bronx. Corey e Vernon são do Brooklyn. E Doug é de Connecticut”, revelou Will sobre as origens de cada integrante. A geografia não mente sobre os aspectos possivelmente autobiográficos de “Open Letter”.
Calhoun, que nasceu no jazz e tocou com gente do quilate de Pharoah Sanders, Wayne Shorter e Herp Alpert, já havia confidenciado ao blog que faria um novo solo de bateria durante a apresentação. “Temo que teremos um solo, sim”, brincou.
E a previsão se concretizou em grande estilo. Não apenas com um solo convencional de bateria, mas com o uso de diversos samplers, triggers, tambores étnicos, bases eletrônicas e recursos visuais como o par de baquetas com luzes coloridas.
Uma inovação em relação às últimas apresentações foi o uso dos telões para exibir o que se costumava chamar de vídeo-arte. Colagens e fusões em vídeo ilustravam cada canção. Assim, “Go Away” teve canhões e recortes de jornal (dava para ler o nome de Daniel Dantas em uma das manchetes!), “Glamour Boys” – que esquentou a pista – foi ilustrada pela sombra de um yuppie caçando dinheiro e um solo de Reid ganhou o apoio de um hipnótica espiral psicodélica.
Uma das sequências clássicas foi testada na passagem de som: “Elvis is Dead” – o esporro de sempre com um provocativo medley com “Hound Dog” – e seu encontro com “Type”, tal qual está gravado em Time’s Up. Nesse caso, um raro pecado. Em referência às interpretações mais formais do passado, “Type”, uma das grandes canções dos anos 90 em letra e música, foi, como no último show, executada em versão com improvisos que a descaracterizaram.
Mas se foi assim com “Type”, ninguém pode reclamar do eterno arrasa-quarteirão “Cult of Personality”, executado à risca e com direito aos famosos samplers com discursos de Churchill e Kennedy.
As covers foram as mesmas da última visita. “Papa was a Rolling Stone” e “Should I Stay or Should I Go” que, como de praxe, encerra o show. O público até correspondeu à brincadeira de Corey que cantava em tom de interrogação. Quando perguntava “Should I Stay?”, a massa gritava “yeah!”. E um sonoro “nooo!” quando a pergunta era inversa.
A empolgação no final fez Corey descer do palco durante uma jam com o tema “What’s your Favorite Color?” e cantar em meio aos fãs. Doug não fez por menos e encarou um crowd surfing com contrabaixo a tiracolo.
As despedidas tiveram o tom de cumplicidade de outras ocasiões, em que público e banda parecem parte da mesma turma. Os músicos, depois de 2 horas e meia de intensidade sonora, ainda tiveram fôlego para uma quase imediata sessão de autográfos.
São os caras que num domingo qualquer papearam sobre a saudade dos filhos atenuada pelo Skype, a alegria de dividirem um palco novamente, o amor pela música e a bênção para a filha do blogueiro que está para nascer. “Vai ser piloto de corridas ou baixista de rock. Vou mandar ‘love vibrations’ para ela durante o show!”, profetiza Vernon.
Que seja assim e seja feliz. Com uma música dessa qualidade, alguma coisa já começou a aprender.