Terça-feira, 12 de Maio de 2009

Uma noite com o Big Voice

Em 1998, Ike Willis, lendário integrante de umas mais importantes encarnações da banda de Frank Zappa, aquela que compreende o fim dos anos 70 e toda a década de 80, apresentou-se no Brasil. Quem esteve no show garante ter sido aquela, uma experiência sensacional. E quem, como eu, fez a asneira de perder, até hoje se lamenta.

Mas não é que, ao espiar a lista de atrações da edição 2009 da Virada Cultural, deparo com o nome de Ike? Um desses raros casos de dinheiro público bem gasto. Mister Big Voice estava escalado para tocar na Praça da República, no domingo, às 17h30, ao lado da incrível Central Scrutinizer Band – uma das, ou talvez a melhor banda-tributo a Frank Zappa no planeta. Porém, o show que era imperdível, ou duplamente imperdível para quem não tinha visto Ike em sua primeira passagem por aqui, acontecia num cenário que não é o meu favorito: uma multidão (desinformada) em um local que não permite grande intimidade entre banda e público. Meu instinto disse que era melhor esperar alguma apresentação extra. E assim foi feito.

No último sábado, dia 9 de maio, Ike Willis repetiu a dose numa simpática casa chamada Aldeia Turiassu. A comunidade zappeira compareceu em número relativamente bom e recebeu em troca uma apresentação absolutamente bombástica.

Sempre ouvi dizer sobre os shows intermináveis do Grateful Dead na década de 70, mas nada podia me preparar para as quase 4 horas – isso mesmo! – de apresentação.

Ike subiu ao palco no seu estilo easy going e logo assumiu a posição de mestre de cerimônias. Apresentou cada um dos 8 integrantes da banda por nome e sobrenome, sem colar, e ainda complementou: “Nós somos a Central Scrutinizer Band”. Clara demonstração da química e da confiança que tem nos músicos brazucas.

Mister Willis mantém sua famosa voz de trovão e caprichou na dose em canções da obra-prima Joe’s Garage. A execução monumental de “Catholic Girls”, “Fembot in a Wet T-Shirt ” e “Why Does it Hurt When I Pee?” levaram a platéia o mais perto que se pode chegar de um show de Zappa sem Zappa.

Com um público totalmente fanático – a ponto de se abraçar e comemorar quando o clássico favorito era executado – e conhecedor de inglês, Ike “Thing Fish” Willis desandou a papear e contar causos. Pediu desculpas pelos 11 anos sem aparecer no Brasil e confidenciou que a Central Scrutinizer Band o “autorizou” a trazer a esposa na viagem. E a pequena homenagem em “Montana”, que teve o refrão alterado para “I’m moving to São Paulo soon”, dá a medida da curtição.

O talento da Central Scrutinizer, após tanto tempo de estrada, ainda parece impressionar Ike. Ele não perdia a oportunidade de cantarolar “great musicians” entre uma faixa e outra. Mas não era pra menos: o discreto guitarrista Rainer Pappon era um que estava com o diabo no corpo! O homem reproduziu solos com precisão matemática e sensibilidade zappiana. E o resto da banda acompanhava o virtuosismo com a simpatia que já virou marca registrada. O “líder” Mano Bap, então, observava Ike com os olhos brilhando, como se lembrasse, a cada minuto, que aquele sujeito ali no palco foi um dos membros mais importantes da dinastia Zappa.

Ike Willis, que volta e meia sentava numa banqueta, fumando um cigarrinho e sempre com uma toalha sobre os ombros, regia os músicos e arriscava pequenos improvisos com a malícia de quem conviveu por cerca de 15 anos com o mestre em pessoa.

Além das já citadas, muita coisa finíssima foi executada na primeira parte do set: “Peaches in Regalia”, “Andy”, “Uncle Remus”, “Florentine Pogen” e a complexa “Inca Roads”.

Não que precisasse de alguma outra faísca de magia para fazer o show especial, mas Mister Willis também sacou a sincronicidade da data: “É Dia das Mães e, como vocês sabem, os Mothers of Invention costumavam fazer apresentações especiais no Halloween ou no Dia das Mães”.


Zappa e Ike Willis ao vivo


Após um descanso de 20 minutos e lá estava a CSB de volta e ainda mais afiada. Ike fez a apresentação: “Essa é uma bela canção escrita pelo meu irmão Frank. Crianças, cubram seus ouvidos, pois ela se chama…”. E aí foi interrompido pelos scrutinizers que, de farra, o advertiam que ele não devia pronunciar o título. Willis retrucou e disse que era americano, então não ia ter grandes problemas e, enfim, anunciou “I Promise no to Come in your Mouth” (“Prometo não Gozar na sua Boca”).

Ocasionalmente, um ou outro fã mais alterado pedia alguma faixa (“Watermelon in Easter Hay”, “Whippin’ Post”, etc) e, já não me recordo como começou, mas Ike respondia na maior gozação: “you’re cheating!”. A coisa, para quem conhece os discos ao vivo de Zappa, virou uma gag recorrente no segundo set da noite.

Aos que tinham coração forte, o repertório ainda reservou “City of Tiny Lights” (“Essa música poderia ser sobre São Paulo”), “Sofa” (“Eu canto em alemão, italiano, japonês. Tudo por causa daquele cara ali” – apontando para um cartaz de Zappa) e uma absolutamente comovente interpretação de “Outside Now” que rendeu mais histórias: “Quando fomos gravar o ‘Joe’s Garage’ em 1979, a ideia era que fosse um single. A faixa-título no lado A e ‘Catholic Girls’ no B. Só que nos trancamos no estúdio e em 5 dias tínhamos escrito 21 faixas! O Frank fez algumas músicas para mim, mas a câmara de eco ficava do outro lado do estúdio e, depois de 3 meses e meio gravando o disco, minha voz estava um fiapo. Essa (‘Outside Now’) é uma das faixas compostas para mim”.

Ike, que se declarou o maior fã de Zappa do mundo, foi aplaudido a noite toda e, percebendo a sinergia do lugar, brincou: “Vocês estão se divertindo? Bem, eu acho que posso estar me divertindo esta noite… Por favor, não me deixem voltar para os EUA, mas, como eu disse, eu posso estar me divertindo”.

Com quase 4 horas de show, ainda conseguiram botar o público pra pular – ou quase isso – com “Keep it Greasey” e mais um interpretação épica de “Whippin’ Post”, dos Almann Brothers, canção eternizada por Zappa. Não fosse o bastante, o público, às 5 da manhã, ainda pediu um bis e foi atendido com “Zomby Woof”.

Uma performance colossal que, segundo anúncio de Ike, pode se repetir no “Zappa Day”, em 21 de dezembro próximo, em São Paulo. Então, fica aqui uma possível boa notícia: se você perdeu, não precisará esperar 11 anos...

Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

Disco é cultura

De acordo com a GloboNews, a indústria musical tratou o mês de dezembro como o “último Natal do CD”. Não é o caso, ainda, de decretar a morte do formato sob o ponto de vista prático, mas a constatação tem um caráter mercadológico que representa o fim de uma era. A era do disco.

Há 5 ou 6 anos, a obsolescência do CD era uma hipótese um tanto remota e mais ainda era a idéia de que a indústrial fonográfica pudesse ruir. Mas isso está acontecendo sob nossos narizes – ou pela indiferença de nossos ouvidos.

Tudo que se tinha para dizer sobre a popularização da música digital, pela ótica tecnológica, já foi dito. Escrevi, há um ou dois anos, para a própria Rock Press, que essa portabilidade propiciada pelo MP3 é reflexo do modelo de vida dos anos 00, onde parar para ouvir um CD na íntegra é luxo ou perda de tempo. A música tornou-se acessório, uma trilha sonora para as conversas no MSN, para o tédio nos escritórios ou para a impaciência no trânsito. Nada além.

Criar formas de transportar a música para que não se “perca tempo” parece a idéia por trás dos últimos suportes – inclusive o CD, que propiciou a reprodução no computador, no discman e no automóvel, sem a necessidade de trocar o LP pela fita cassete, mas que, afora os objetivos, manteve a viabilidade comercial do disco.

Antes de cair na tentação de me repetir e terminar reproduzindo todas as colocações do texto citado, vamos ao que de fato interessa: tomar uma posição. Sim, porque muito se fala da democratização da música proporcionada pelo download irrestrito versus as perdas financeiras enfrentadas por músicos e gravadoras. Mas a questão aqui pretende ser tratada pelo viés sociocultural: qual a importância da música gravada como registro de seu tempo, como substituir a idéia de álbum que vem norteando a música popular há mais de 40 anos e o que fazer pela boa formação de novos ouvintes.

Comprar essa briga agora é mais do que nadar contra a maré. É parecer ridículo e deslocado da realidade. O Metallica, por motivos que à época pareceram tacanhos, e talvez o fossem, levantou-se contra o pioneiro Napster e foi achincalhado por fãs e outros artistas. Então o que dirá requentar esse discurso em 2009, com a prática do download já amplamente disseminada? O negócio agora é apenas sair de cima do muro. De que lado você está, afinal: dos que acham que a música digital é uma bênção ou uma maldição?

Esses dias, de onde menos esperava, ouvi uma declaração curta e bastante sincera acerca da questão. Em seu programa de entrevistas – exibido em São Paulo pela TV Gazeta –, Ronnie Von interrompeu seu convidado, um divulgador musical que contava causos insípidos, assim que ouviu a palavra mágica “disco”. O ex-cantor de “rock” psicodélico e ídolo da Jovem Guarda encheu a boca pra dizer: “Disco! Isso, sim. Vinil! Que coisa boa. O disco era impirateável”. E não é verdade? Ronnie disse o óbvio, mas às vezes o óbvio é o bastante.

A música era importante na vida das pessoas porque, fora a conjuntura socioeconômica favorável, ainda era algo restrito. O disco era um objeto palpável que possuía valor comercial. E agora a música, sem a importância de outra época e em oferta gratuita e abundante, tornou-se banal. Não apenas porque é oferecida em quantidade irreal (informação demais é informação nenhuma), mas também porque a qualidade é baixa. Já disse em outra ocasião e repito: as pessoas estão se limitando a ouvir arquivos. E estes arquivos, via de regra, já chegam ao destino final achatados e são reproduzidos por miseráveis caixas de som chinesas para computador.

Se parece anacrônico imaginar que alguém vá queimar um CD para cada álbum obtido em forma digital, também parece significativo lembrar que a venda online de música esteja caindo. As pessoas que já não pagavam pelo formato físico, passaram a economizar seus trocados também nos iTunes e Sonoras da vida. A informação é do jornal Metro e foi publicada antes da crise econômica global, portanto não tem relação direta com o queda no consumo. É, apenas e lamentavelmente, um sintoma da queda de interesse.

Li, aqui mesmo no portal RP, que Gene Simmons andou dizendo que o “mercado está uma bagunça” e, indiretamente, culpou os fãs pela demora em gravar um novo álbum do Kiss. Gene pensa mais em dinheiro do que em música, mas não deixa de ser sintomático que alguém que fez carreira lançando discos defina o mercado atual como “uma bagunça”. Gravar pra quê?

Com a desvalorização artística e comercial do disco, os efeitos começam a ser vistos em todo o lugar: cai drasticamente o nível das gravações (se o consumidor ouve arquivos, não precisa de nada melhor), redes de lojas – como a famosa Tower – baixam as portas, selos independentes têm sua existência ameaçada e toda a cadeia produtiva e criativa antes usada para gerar o produto maior, aquele que balizava a indústria, o fã e o crítico, passa a correr riscos.

Em um edição qualquer de 2008, a revista de propaganda Meio & Mensagem publicou notícia a respeito do interesse da Microservice – um dos maiores fabricantes de CDs e DVDs do Brasil – em ingressar no aquecido mercado de motocicletas… Significa algo, não?


Longe da esfera corporativa, cabe aqui uma experiência pessoal e que ilustra este novo cenário aplicado à realidade do dia-a-dia. Uma das mais charmosas lojas de discos de São Paulo estava situada no bairro onde passo a maior parte do meu tempo. Pelo menos uma vez por mês, eu fazia uma visita à Nuvem Nove para comprar algum CD. Não só porque eu, naturalmente, me interessava em adquirir tais títulos, mas também para dar minha parcela de contribuição e tentar manter a loja viva – ainda que jamais tenha ouvido dizer que passasse por qualquer dificuldade financeira. Foi ali que, além de comprar discos de Vernon Reid, Buzzcocks, Isaac Hayes e edições do ótimo Poeira Zine, batia papo sobre música com os simpáticos funcionários e frequentadores.

Toda vez que passava com um amigo em frente da loja, dizia: “Aproveitem para curtir esse lugar antes que feche”. Pois aquele comércio que lembrava o de John Cusack em “Alta Fidelidade”, encerrrou as atividades no primeiro trimestre de 2008. Lamento ter acertado a previsão, mas outros também sentiram a ausência daquele ponto de referência.

Fiquei sabendo do fim da Nuvem Nove por intermédio de uma comovente coluna de Nando Reis no Estadão. O músico, criado ali no Itaim Bibi, bairro que acolhia a loja, descreveu com sensibilidade o que para ele é um sinal dos tempos. Para saber mais sobre o fechamento da loja, assista a esse documentário aqui.

E se este é apenas um exemplo próximo e que me é mais caro, não faltam outros. No momento em que escrevo este post, estou envolvido com um projeto para revitalizar um dos selos punks mais ativos do país e evitar que tenha o mesmo fim da Tower Records ou da Nuvem Nove.

Não trata-se de negar os aspectos positivos da inclusão digital, de defender o modelo predatório das grandes corporações do disco e, muito menos, de cogitar a retrógrada lei de criminalização do download. O Caixa Preta apenas assume sua impopular posição à favor da cultura do disco e sugere a reflexão dos que vivem dentro da bolha digital.

Como sempre, este texto tem uma enquete correspondente. Participe!

Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

Do VMB e outros demônios

O VMB é aquele tipo de atração que a gente ama odiar. As emoções descontroladas dos novos “artistas” , a empáfia dos mais estabelecidos, o ar blasé de um convidado e o deslumbramento de outro. Tudo sob a condução de algum mestre de cerimônias com um sketch cômico porcamente transplantado do modelo americano.

Semana passada aconteceu a edição 2008 do evento. Um tragicômico testamento que a música pop brasileira faliu de vez.

Mas nada é por acaso. Há cerca de 2 anos a MTV Brasil criou um factóide. A emissora distribuiu releases avisando meio mundo que deixaria de exibir o produto que a consagrou: os vídeo-clipes.

A estratégia mercadológica do canal já era há muito conhecida e os clipes continuaram sendo exibidos nos parcos horários que lhes eram reservados. Nada de novo.

Seja como for, por trás da falsa notícia do banimento dos clipes na MTV Brasil existe uma óbvia realidade: esse mundo conectado e digital gerou um tipo de (má) formação no público jovem, esse bicho estranho com déficit de atenção. A música tornou-se a trilha sonora para as horas no computador. Com muito custo, os arquivos viram um CD-R. Ou o ringtone da vez. O novo fã de música gosta mesmo é do artista, da roupa do artista, da tatuagem do artista.

Fruto dessa realidade, a edição de 2008 foi um marco. A premiação em si, você sabe, só existe para manter o evento que é uma das boladas publicitárias da casa. Com a mirrada produção de clipes atual, as categorias são genéricas. Uma espécie de Prêmio Multishow melhorado.

Sem a necessidade de critérios algo técnicos, o VMB 2008 consagrou mais uma vez o emo – praga que mostra-se mais resistente do que se julgava. Das poucas categorias hoje existentes, o NX Zero foi o maior ganhador. Antes fosse por algo como “Melhor banda que canta chorando” ou “Melhor banda que chora cantando”, mas sua torturante “Pela Última Vez”, acredite, foi eleita o hit do ano. Que tenha sido, de fato, pela última vez.

O evento também é uma espécie de quem é quem no pop rock nacional. Os dinossauros do BRock estão lentamente se extinguindo. Sentados na platéia, com sorrisos amarelos, assistem a uma turma que fugiu da Malhação tomando seu lugar.

Algumas bandas de safra mais recente também parecem rebaixadas à Segunda Divisão do rock nacional. É o caso de CMP22 e Charlie Brown Jr., que hoje estão à sombra dos novos emos.

Claro que, com prêmio ou sem, na Série A ou na B, ninguém perde a pose. A festa acontece em São Paulo, mas é como se fosse Los Angeles. O show business brazuca é bem mixuruca – de uma dúzia de artistas, quase sempre os mesmos –, mas tenta-se manter um glamour extraterreno.



Só que a falta de charme é também musical. Se o VMB escolher a desculpa de que apenas irradia o que acontece na música brasileira, há de se lembrar que o evento já abrigou shows de boas bandas em bons momentos. Planet Hemp, Sepultura, Racionais MCs e Chico Science & Nação Zumbi já passaram por ali. Os novos tempos são bicudos.

Não assisti à apresentação de Ben Harper & Vanessa da Matta, nem à de Marcelo D2. A estréia dos Nove Mil Anjos – previsão do Caixa Preta confirmada em grande estilo – vi só no YouTube. Uma pataquada apresentada por um dos cachorros grandes como superbanda. Peu Souza, veja só, virou, nas palavras do apresentador convidado, o responsável por alguns dos maiores hits do rock nacional em todos os tempos…

Mas se a empreitada rockeira de Junior Lima pode ser chamada de tola, como classificar a excrescência musical dos playboyzinhos curitibanos do tal Bonde do Rolê?

E que tal mais uma das intermináveis canjas de Pitty, com suas caras e bocas de sempre, com o som do tamanho de um barzinho da 13 de Maio?

Só que teve mais. O incensado Bloc Party – mais uma invenção inglesa dos anos 00 –, lançou mão de um constrangedor recurso: o velho playback à la Cassino do Chacrinha. Nem o “rock on, man!”, de Dinho Ouro Preto, os estimulou... Uma metáfora que resume tudo. Genial.

Mas quem sabe faz ao vivo, certo? Errado. O encontro abominável de Chitãozinho & Xororó com Fresno que o diga. Os sertanejos, com certeza, já viveram dias melhores - no mínimo, do ponto de vista comercial. Aceitar uma parceria de tão baixo quilate só mesmo com muita coca-cola.

Por fim, um clipe com 5 minutos do mais puro terror. Uma gracinha inventada pelo bom comediante Marcelo Adnet transformou-se num Live Aid mongolóide que diz muito sobre o estado das coisas na música brasileira.

Caem as máscaras e o show bizz sílvicola revela-se em sua mais gloriosa mediocridade: artistas de cuia na mão pagando um verdadeiro King Kong para o canal a quem – só pode ser – eles devem até as calças.

Se você perdeu tudo isso, não se preocupe, a MTV vai dar um show de reprises. Fique de olho e separe a cerveja. Você vai precisar.

Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

A vida sem música é um erro

A frase é de Nietszche. E quando o filósofo fez tal afirmação, com certeza não imaginava que suas idéias seriam usadas, mais de um século depois, para validar a música do Metallica.

Tampouco imaginava este escriba que no curso de uma semana seria perseguido pela banda americana em música e letra. E como desde o fim do grupo, em 1986, perdi o interesse por eles, suponho que devo considerar tal perseguição um problema.

A história começou com o lançamento do primeiro álbum do Metallica em 5 anos. Continuou com uma esquecida banda brasileira de metal. E, acredite, terminou de forma bizarra, na seção de filosofia de uma livraria. Tudo em uma semana.

Abaixo tento concatenar as idéias…

Ouvi “Death Magnetic” da forma que Lars Ulrich adoraria - em MP3 - e portanto sem o suporte ideal para um julgamento justo. Mas a impressão inicial é que, por mais que a banda tenha se esforçado para recuperar a essência, algo simplesmente não funciona mais. E o problema é que essa decisão de buscar o passado mais parece fruto de uma estratégia de marketing, tal como "St Anger", um disco gerado à fórceps.



Rick Rubin, o produtor que registrou os grandes clássicos do Slayer, o multiplatinado “Blood Sugar Sex Magic”, dos Chili Peppers, além de outros fenômenos, foi chamado para substituir o defasado Bob Rock e salvar a lavoura.

A idéia de Rubin, não tenha dúvida, foi fazer a banda estabelecer uma conexão entre o que é hoje e o que foi nos anos 80. As canções são longas o suficiente para lembrarmos do arrastado “And Justice for All”. O problema é que o grupo não sabe bem como preencher músicas de 8 minutos com a consistência de outrora. Mudanças de tempo, pilhas de riffs e tentativas de (re)produzir solos épicos terminam em exercícios inócuos de saudosismo.

E há de se entender: o que ainda existe de verdade nos 3 remanescentes do Metallica original? Milionários e entediados, eles mostraram no filme “Some Kind of Monster” que, sozinhos, teriam matado um ao outro se assim pudessem. Entre um terapeuta mala, um produtor obsoleto e a suposta ressurreição pelas mãos de Rubin, é tudo sobre terceiros.

O Metallica é uma holding que fatura milhões e gera empregos. Mas, perceba a contradição, sucesso e fortuna transformaram os integrantes do Metallica em pessoas que os fazem piores músicos.

James Hetfield, uma espécie de neo-ícone redneck, adquiriu irritantes cacoetes vocais desde o “black album” e, pelo jeito, pretende levá-los para a sepultura. Kirk Hammett é fisicamente incapaz de superar qualquer riff ou solo que tenha criado até o fim do grupo, em 1986. Lars Ulrich, primeiro opositor ao download de música, sempre foi o mais limitado entre os bateristas das famosas bandas de thrash metal e está ainda mais econômico. Rob Trujillo, por sua vez, ganhou um cheque de 1 milhão de dólares na admissão, mas não tem espaço para fazer o que fazia no Suicidal – e também não é melhor baixista para o Metallica que um dia foi Cliff Burton.

Essas pessoas não parecem mais capazes de gravar um grande álbum. Ainda que, confesso, “Death Magnetic” seja o primeiro álbum do Metallica que ouço, na íntegra, desde 1991. “Load”, “Reload”, “Download”, “Upload” e o que valha, não me interessaram minimamente. O que ouvi de “St. Anger” pareceu-me um pastiche.

Portanto, em comparação aos sucessos comerciais de sua época de ouro nos negócios, “Death Magnetic” nem é tão ruim. Mas é como se sua existência não fizesse a menor diferença. Nada nesse disco chega perto da sofisticação e da energia de “Ride the Lightning” ou “Master of Puppets”.

Para piorar, em meio a audição de "Death Magnetic" lembrei-me de um disco que não ouvia há quase 2 décadas. Trata-se de “Into the Strange”, do finado quarteto de Belo Horizonte, Mutilator.


Vinte anos após seu lançamento e quase o mesmo tempo desde minha última audição, foi surpreendente relembrar a audácia da banda. Gravado com os parcos recursos da época e com instrumentos que, nem de longe, se equiparam àqueles que andam nas mãos dos rockeiros brazucas de hoje, “Into the Strange” é repleto de climas, solos atrás de solos, letras interessantes e, em diversos momentos, veja só, uma descarada inspiração em “Master of Puppets” – ápice criativo do Metallica.

Mesmo sem a metade da técnica dos americanos, os “belzontinos”, quando analisados sob a perspectiva do tempo, têm algo a seu favor: fizeram o que fizeram na época certa e acreditando naquilo para além de planilhas, gráficos de vendas e decisões de uma holding.

O Mutilator não gravou mais nada depois de “Into the Strange” e desapareceu na poeira do tempo. Seu principal integrante chegou a ter outra banda com o nome de Chemako. Mas dizem, e não apurei, que o músico já é falecido há alguns anos.

E perdido em estranhas ilações entre uma banda esquecida das Minas Gerais e a mais popular banda de rock pesado do planeta, dou de cara com um título esdrúxulo no setor de filosofia de uma livraria: “Metallica e a Filosofia”.


Num atabalhoado esforço para validar as letras e conceitos da banda de San Francisco, um grupo de “filósofos” cita de Nietzsche a Platão, sem o menor constrangimento, para analisar canções como “Motorbreath”, “One” e “Welcome Home (Sanitarium)”.

Trata-se de um besteirol publicado – e mal revisado – no Brasil pela editora Madras e que serve como item bizarro de coleção para aquele fã com algum senso de humor negro. Não é meu caso. Ainda que, como o filósofo alemão, eu acredite que a vida sem música seja mesmo um erro.

Sexta-feira, 5 de Setembro de 2008

Saravá, meu pai!

Deu no portal Globo.com:

"Junior Lima, irmão da cantora Sandy, acaba de anunciar a formação de uma nova banda batizada de Nove Mil Anjos. O grupo reúne Junior na bateria, Champignon (ex-Charlie Brown Jr.) no baixo e Peu Sousa (ex-Pitty) na guitarra. Péricles Carpigiani, ou Perí, é o vocalista".

A notícia é complementada com a informação de que a banda está em Los Angeles, concluindo as gravações do primeiro disco. Apesar de estarem na terra do rock, o produtor é argentino.

A cereja do bolo é assistir a um despretensioso videozinho de "apresentação" da banda, que a rigor não apresenta coisa alguma.

O baixista-dos-sonhos-da-mtv Champignon surge primeiro, fazendo suas habituais micagens, que alguns chamam de beat box. Ele diz que são a banda Nove Mil Anjos e estão em Los Angeles gravando um disco. "Vem muito barulho por aí!". Junior - de moicano - junta-se a ele e ambos caem na risada: "Los Angeles, Hollywoooood!".

Aquelas bobagens típicas de bandas de rock. Você já deve ter visto os Chili Peppers ou os Beastie Boys fazendo micagens do tipo, tão idiotas quanto, mas eles têm a música pra se garantir. Dos tais Nove Mil Anjos, ufa, ainda não se sabe nada.

O ex-Pitty Peu Sousa, não satisfeito, puxa o refrão do clássico de Neil Young, "Hey hey, my my" pra dar o recado: "Hey hey, my my / Rock and roll can never die". E Champignon acompanha com o beat box que, acreditem, o fez famoso.

É engraçado ver Junior no meio daquelas pessoas. Criado em berço esplêndido sob uma educação de valores sertanejos, o moleque cresceu, largou a saia da irmã e montou uma banda de "rock". Seu jeito de bom menino não combina em nada com o estilo malandro-bobo-de-Santos do Champignon. O de Chorão combinava e muito bem.

Peu Sousa, que andou perambulando pela banda de apoio de Marcelo D2 e por um falido De Falla, aproveita a onda. Todos, aliás, só têm a ganhar com a notoriedade do ex-companheiro da Sandy.

Milionário, bem sucedido entre o público teen e com estrada no show business nacional, Junior é a estrela solitária que deve ter rendido ao grupo uma gravação em LA. E, com certeza, o gancho para as assessorias de imprensa promoverem o "media blitz" que acompanharemos nos próximos meses.

Mas o que o ex-cantor de "Maria Chiquinha" tem a ganhar com isso? Uma suposta credibilidade para a fase adulta de sua carreira.

Tenho até certa complacência com o rapaz - sem ironia. Não deve ser fácil se desvincular de tantas aparições, desde tão cedo, nos piores e mais populares programas de tevê do Brasil. A superexposição fez de Sandy e Junior produtos perfeitos para o consumo da família brasileira. Ele vinham embalados com aquela assepsia típica dos produtos artísticos da Xuxa, aquela simpatia de plástico dos entrevistados do Faustão, aquela aura cristã sertaneja que topa, numa boa, um pout-pourri ao lado do padre Marcelo Rossi.

Como se livrar de um passado desses e entrar no "rock" com alguma dignidade? Suponho que Junior, ou seu assessor, tenham concluído que a melhor saída fosse mesmo estar ao lado de caras que são "do rock". E para quem andava no ostracismo - como os novos companheiros do ex-Sandy -, é um belo emprego.

Então, não estranhe se no próximo Prêmio Multishow ou no VMB você der de cara com os Nove Mil Anjos (10,000 Maniacs?) representando o rock nacional.

E eles, com certeza, agirão como completos panacas - fazendo micagens como as do vídeo abaixo - e te trarão a incomôda sensação de vergonha alheia.

Mas, tudo bem. "Rock and roll can never die", não é mesmo?

Terça-feira, 26 de Agosto de 2008

O diabo brasileiro

O tema já foi tratado com mais espaço no blog Cine RP, e o Caixa Preta assina embaixo: o novo filme de José Mojica Marins é imperdível.

Mojica, se você não sabe, é o homem que criou o personagem Zé do Caixão - figura que habita o imaginário popular brasileiro há pelos 40 anos. Ao longo do tempo, criador e criatura se misturaram para o bem e o para mal.

Em busca de espaço na mídia para promover sua persona e tentar cavar algum projeto, o cineasta aceitou de tudo: cortou as famosas e enormes unhas no extinto programa "Viva a Noite", do Gugu Liberato, enquanto seu amigo Zé Ramalho interpretava um número musical (me lembro de ficar comovido com as lágrimas de Mojica a cada unha cortada...). Virou apresentador da sessão de filmes B da Bandeirantes, Cine Trash. Marcou presença e rogou pragas em vagabundos programas de auditório. E provavelmente fez algum bico nas Noites do Terror do Playcenter, famoso parque de diversões paulistano.

Por essas e outras, Mojica pagou o preço da exposição forçada de Zé do Caixão. Mais de uma geração o conhece apenas como a figura folclórica da TV, e não como o diretor de cinema responsável por maravilhas como "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" e "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver". A criatura engolindo o criador.

Minha geração, por acaso, tem mais reverência. Tanto pela criatura quanto pelo criador. Quando criança, eu e o resto de meus colegas de classe e vizinhos morríamos de medo do Zé do Caixão. Motivo: o infame programa "Um Show do Outro Mundo" exibido pela TV Record. Ali, Mojica mostrava de tudo: despachos da pesada em terreiros de macumba, histórias de assombrações como a do fulano que teve a cabeça decepada e ficou vagando decapitado pelo mundo, além de outras aberrações.

Só no início da idade adulta é que tive a chance de conhecer o que realmente interessa no trabalho desse gênio da raça: sua obra cinematográfica.

No início dos anos 90, o saudoso Cineclube Elétrico, da Rua Augusta - onde vi filmes e vídeos de rock e algumas preciosidades do cinema -, fez uma exibição especial de "O Despertar da Besta". Era uma sexta-feira, 13. Ouvi a chamada no rádio e me mandei para o cinema a fim de assistir, finalmente, a um filme de Mojica na tela grande. E o que é melhor, ainda teria a chance de conhecer o homem em pessoa (sim, o Zé do Caixão apareceria no final da sessão para bater papo com o público).

Não mais do que 6 testemunhas compareceram ao Elétrico para prestigiar a exibição. Uma delas, o então editor da Bizz André Forastieri. E o filme de 1969 é muito bom: bizarro e lisérgico na medida. Ao fim da sessão, o filho de Mojica avisou aos gatos pingados que seu pai estava atrasado, mas a caminho. Dez minutos depois, todos se mandaram dali sem encontrar o Zé...

Nesses 17 ou 18 anos que separam a melancólica ida ao Elétrico, Mojica foi redescoberto. Em boa parte por causa de outro André, também ex-Bizz. A divertida e completíssima biografia "Maldito", escrita por André Barcinski e Ivan Finotti, botou, em certa medida, Zé do Caixão na pauta jornalística. Mais do que isso: Barcinski, que já havia feito o link entre o diretor e a cultuada distribuidora americana Something Weird, também realizou premiado documentário sobre Mojica. Na América, Zé do Caixão virou Coffin Joe e conquistou um número razoável de admiradores.

Todas essas oportunidades juntas não deram em coisa alguma para o diabo brasileiro. Mojica continuou pingando nos programas de TV e sonhando com um novo longa-metragem que nunca chegava. Nunca até ganhar o grande prêmio em um concurso de roteiros e viabilizar seu projeto de, pasme, 1966: "Encarnação do Demônio"!

O filme fecha a trilogia iniciada pelos ótimos "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" (1964) e "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver" (1966). O plot continua de onde o ex-coveiro Zé do Caixão tinha parado: o homem quer gerar o filho perfeito para sucedê-lo e continuar sua linhagem de sangue de tocar o terror nesse mundo de marionetes humanos. Parece estranho? Não se espante, a filosofia "mojiquiana" é bastante singular.

O resultado superou as expectativas e, provavelmente pela primeira vez na carreira, o diretor recebeu elogios de todas as partes.

Para mais detalhes sobre o filme, vale uma visita ao blog Cine RP. Aqui, me limito a rápidas considerações.

"Encarnação do Demônio" poderia - e deveria - ter arrebatado o público jovem que se esbalda com franquias como "Jogos Mortais" e "O Albergue". O filme é sangrento, sádico, explícito e bizarro na dose exata. Com um orçamento pífio para os padrões internacionais, a brava gente envolvida nessa produção saiu-se com uma obra de acabamento muito bom, direção de arte e efeitos especiais bem decentes.


"Encarnação do Demônio" não caiu em dois grandes riscos: revelar o possível cansaço de um diretor veterano ou resultar em algo acidentalmente engraçado/constragendor. Muito longe disso.

O roteiro é esperto e rejuvenesceu a idéia do personagem Zé do Caixão, transpondo com muita eficiência suas doideiras para o mundo atual. Mérito do próprio Mojica, que juntou-se a dois jovens talentos brasileiros: o diretor de curtas de terror Dennison Ramalho e o produtor e diretor Paulo Sacramento, do cultuado "O Prisioneiro da Grade de Ferro".

Com tudo isso, "Encarnação do Demônio" revelou-se uma aposta inteligente. Não apenas fez sua contribuição para revitalizar o moribundo cinema de gênero no Brasil (embora as fracas bilheterias causem desgosto), mas, acima de tudo, deu a José Mojica Marins o maior reconhecimento que este poderia receber em vida: terminar sua carreira em grande estilo. Ele merece.

Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008

O último "Bad Mutha"

Em 1992, uma importante geração de artistas completava 50 anos de idade. Uma matéria publicada à época, salvo engano na Folha de S.Paulo, se referia ao fato citando um tal "efeito horizonte", que nada mais é do que a idéia de que determinados períodos do tempo produzem um número incomum de mentes brilhantes.

Não sei com que freqüência boas e novas fornadas de gente criativa surge no mundo, mas cada vez que morre um grande músico, me parece que não teremos um sucessor à altura.

Ontem morreu Isaac Hayes, um dos grandes mestres do soul. Pergunto ao leitor de RP: quem seria seu substituto na música negra contemporânea?


Isaac não foi apenas o criador da premiada e célebre trilha sonora de "Shaft", que lhe rendeu inclusive o Oscar. O cantor, compositor e arranjador é autor de um dos álbuns essenciais da soul music: o brilhante "Hot Buttered Soul", lançado em 1969, dois anos antes de "Shaft".

A riqueza dos arranjos e sua voz de veludo, ajudaram Isaac a fazer história na gravadora Stax, grande rival da Motown na década de 70. Além disso, o músico ostentava o estilo "bad mutha", como ele gostava de chamar, que era composto pela cabeça raspada, os óculos escuros e alguma corrente de ouro que pesasse pelo menos 2 kilos. E, claro, nada de usar camisa.

Em tempos de luta pelos direitos civis nos EUA e do subgênero de cinema batizado de blaxploitation, que o próprio Hayes ajudou a popularizar como ator, esse visual era, acima de tudo, uma declaração de auto estima, estilo e malandragem. Coisa que os imitadores baratos de hoje parecem desconhecer.

Em sua fase mais inspirada, Isaac Hayes gerou ainda outro clássico: "Black Moses", também de 1971. O disco tinha uma capa sensacional - o LP se abria em formato de cruz, estampando a foto do cantor como o "Moisés negro". A ótima editora Taschen incluiu a capa deste álbum no simpático livro "1000 Record Covers".

Na metade da década de 70, a Stax praticamente faliu e Isaac estava todo enrolado em contratos e dívidas com a famosa gravadora de seu estado natal (Tennessee). Ele assinou sua rescisão para tentar minimizar o estrago e montou seu próprio selo: Hot Buttered Records.

Hayes embarcou nos embalos da disco music e produziu dois álbuns bem decentes - um deles instrumental - baseado na sonoridade que então tomava a América de assalto. Mesmo com o relativo sucesso, o selo também afundou em dívidas e, tal qual James Brown e tantos outros, Isaac viu seu patrimônio ir para o vinagre.

O artista ensaiou uma volta nos anos 80 - o disco "Love Attack" é bastante subestimado - e só começou a se recuperar financeiramente quando tornou-se o dublador oficial do esperto personagem Chef, do seriado South Park.

Depois de anos trabalhando na série, Hayes rompeu com Matt Stone e Trey Park - criadores do ácido desenho animado. Motivo: um episódio que satirizava a cientologia, "religião" da qual era fervoroso adepto.

Coincidência ou não, Isaac - pai de 12 filhos - começou a retomar a carreira musical depois que abandonou South Park. Ele voltou à ressuscitada Stax e planejava lançar um novo álbum em 2009 - seria seu primeiro de inéditas desde "Raw & Refined", de 1995.

De tudo que produziu ao longo de 4 décadas, Isaac Hayes será lembrado pela trilha sonora de "Shaft", que inclui momentos de pura sofisticação musical como "Cafe Regio's" e "Do Your Thing".

Muitos textos já foram escritos sobre a importância desse álbum para a cultura negra norte-americana e parece unanimidade que, de certa forma, Isaac foi o cara que conseguiu, de uma tacada só, representar a sonoridade de toda uma época e, por efeito, enterrar a década anterior. É como se os primeiros segundos de "Theme from Shaft", o famoso chimbau e a guitarra com pedal wah-wah, sinalizassem que os anos 70 tinham chegado. Não é pouco.

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