quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Rock de brinquedo


Se você leu o artigo “Disco é cultura”, publicado aqui no blog, sabe que uma das opiniões do Caixa Preta é que a música digital engoliu uma cultura –a da apreciação do disco– que ajudou a moldar a história do rock como a conhecemos.

Nos meses seguintes à publicação do texto, o radar deste blogueiro detectou a avalanche de rock juvenil que vem dominando todos os veículos conhecidos. E a culpa, mais uma vez, recai sobre os MP3 que você anda baixando no seu computador. Continue a leitura e entenda porque.

Um dos maiores argumentos a favor do livre tráfego de arquivos de áudio pela internet são as possibilidades de autopromoção para o artista. Ou seja, agora ele não precisaria mais da nefasta figura da gravadora para fazer sucesso.

Mas note que os mais ferrenhos defensores desta corrente, não por acaso, são pessoas que não gostam de música. Iguaizinhos aos antigos tubarões das gravadoras, desde sempre estigmatizados por devorarem carreiras e largarem suas carcaças por aí.

Se você não sacou, estou falando dos marketeiros digitais.

Há alguns meses, recebi um exemplar da revista Meio Digital – publicada pelo grupo Meio&Mensagem, maior editora e promotora de eventos do mercado publicitário nacional. A capa da revista exaltava as tais “possibilidades” de promover um artista na internet.

O case da vez era Mallu Magalhães, que posava na capa ao lado de um time que incluía executivo de operadora de celular, CEO da falecida filial brasileira do MySpace e até um sujeito com nova profissão: "empresário com pegada digital". O título da matéria não podia ser melhor, ou pior: "A banda agora é outra”. Lindo, não?


Repare, não se fala de música, mas, sim, de estratégias para gente que não gosta de música ganhar dinheiro com música. Normalmente, a jogada é oferecer música como brinde para a molecada. Coisas esquisitas como “conteúdo embarcado”, um jargão mercadológico para as porcarias do artista pop do momento que turbinam os celulares. Existe até um prêmio para artista popular em aparelho celular, um equivalente telefônico do hoje pálido disco de ouro…

Você pode não perceber, mas é a visão cada vez mais marketeira da música, com target e demographics muito claros, que vem despejando no seu ouvido aberrações juvenis como Cine e Hannah Montana.

As boy bands e artistas pop adolescentes de laboratório sempre existiram, mas a infantilização do rock, na escala atual, com certeza é novidade – e consequência direta da música digital.

Veja como a lógica é simples: música, hoje, só se consome pela internet e o maior contigente de consumidores digitais parece ser mesmo o infanto-juvenil.

A coisa está tão segmentada, e sedimentada, que pra reunir os Beatles vivos e suas viúvas, só mesmo lançando um game do grupo – o tal “Rock Band”.

Na TV que o Brasil assiste é a mesma coisa. A Globo, repetidora de tendências que é, já deu um jeito de botar o rock-mirim na sua grade através do seriado “Geral.com” – uma tentativa de vender o rock internético embalado para uma faixa-etária ainda menor que aquela do “Malhação”.

E não pense que pára por aí, pois o fenômeno espalha suas garras pra todos os lados. De uns anos pra cá, surgiu a modalidade “Garage Band” em edifícios residenciais. Trata-se de um local de ensaio para bandas, recurso para deixar os pais tranquilos que sua prole não vai sair do condomínio pra tocar aquele rock perigoso de antigamente.

Há algum tempo, veja você, estive em um churrasquinho inofensivo. Familiar até. Entre um gole de cerveja e outro, ouço um riff de guitarra. Dali a pouco o mesmo riff e parecia até conhecido. Mais alguns minutos, ouço a guitarra de novo. E de novo. Era o riff de “Raining Blood”, do Slayer.

Confuso, perguntei ao dono da casa de onde vinha a repetição da diabólica base de guitarra criada por Kerry King e Jeff Hanemann e que em nada combinava com a atmosfera bucólica do lugar.

“São as crianças. Estão jogando Guitar Hero. Elas adoram essa música”.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O bom de papo

Sabe esses repórteres impertinentes da TV, aqueles que desligam o microfone para sacanear o entrevistado e coisas do tipo? Bom, normalmente eles não têm a menor graça. E as vítimas das brincadeiras são ainda mais desinteressantes – aquele mundinho de pseudo-celebridades que mereceria ser sacaneado de verdade e não de mentirinha.

Agora imagine um repórter afetado, uma mistura de Ernesto Varella, aquele personagem criado pelo Marcelo Tas nos anos 80, com Austin Powers. E imagine que esse cara dedica-se a entrevistar gente do mundo da música.



Esse cara existe. É canadense e tem um acervo respeitável que já reúne 20 anos de entrevistas. Nardwuar, o codinome do sujeito, já entrevistou gente do naipe de James Brown, Butthole Surfers, Ian MacKaye, Iggy Pop, Alice Cooper, Glenn Danzig e, para citar suas “vítimas” favoritas, Jello Biafra e Snoop Dogg.

Conheci o trabalho desse maluco nas páginas do Flipside, o lendário fanzine punk americano que foi desativado em 2000, depois de 23 anos de publicação ininterrupta. Mas Nard também faz pontas no canal MuchMusic, tem um programa de rádio há 20 anos e canta na banda The Evaporators. É o que a Maximumrockanroll chamaria de “scenester”. Ou seja, um ativista que vive pela cena.

A boa notícia é que uma parte substancial desse acervo de entrevistas vem sendo postada pelo próprio Nardwuar no YouTube! São trechos imperdíveis de conversas realizadas ao longo das 2 últimas décadas.

É tanto material que o fã de música vai se perder. Ou como diz a sinopse de uma de suas compilações em DVD (sim, o cara está lançando isso tudo em DVD!): “É melhor inventar uma doença para faltar no trabalho”.

O jeito de entrevistar de Nardwuar mistura irreverência nerd com os interesses de um fã de música obsessivo.

Pra começar, Nard sempre pergunta o nome do entrevistado, de uma maneira a tirá-lo do pedestal e colocá-lo na posição de pessoa comum. E depois, de pirraça, começa ou termina as perguntas com o nome completo do entrevistado (“O que você acha disso, Alice Cooper?”). Para apimentar a brincadeira, o título das entrevistas é sempre aquele de um duelo: Nardwuar vs….

Algumas perguntas são impertinentes mesmo, mas a maioria é fruto de pesquisa e surpreende os músicos acostumados a responderem as questões de sempre.

Mesmo com a voz pernóstica e o vestuário cômico, Nardwuar usa seu carisma para quebrar o gelo e, com isso, mostrar um pouco da personalidade que existe por trás de cada músico.

Numa conversa com Henry Rollins, gravada em 1998, Nard recebe ameaças revestidas de humor negro –“Está vendo essa atadura no meu pulso? Foi de socar um cara”– e também elogios. “Você é uma figura carismática, disso não posso discordar”, diz Rollins depois de ser aporrinhado com 10 perguntas por segundo e ainda ganhar uma barrinha de cereais.

De Jello Biafra, com quem estabele engraçada cumplicidade, o intrépido repórter arranca curiosidades acidentais. Em um dos papos, Jello revela: “Os Misfits queriam processar o Dead Kennedys por causa da música ‘Halloween’. Só faltou irem atrás do John Carpenter e processá-lo pelo filme”. Nardwuar é tão cara-de-pau que consegue fazer Jello repetir até as conhecidas mímicas que faz no palco.

Esse lado panaca é elevado ao cubo quando Nard implora de joelhos a Tom Araya, do Slayer, que execute um de seus famosos e monstruosos agudos.



Um dos chavões do repórter é terminar todas as conversas com a frase/pergunta “Doot doola doot doo…”, esperando que o entrevistado complete a melodia com um aguardado “doo doo”. A maioria entende a brincadeira. Ice-T, por exemplo, responde no estilo “original gangster” e manda um “Bang! Bang!”. Outros, como Lars Frederiksen (Rancid), Jack e Meg White ou Vanilla Ice, completam a melodia com ingenuidade quase infantil.

Ao contrário dos entrevistadores bobalhões que fingem gozar com a cara de celebridades, Nardwuar faz brincadeiras sem maldade. Uma delas, com Gene Simmons, beira o surrealismo.

Nard mostra ao linguarudo uma espécie de enciclopédia de rock canadense – em uma de suas tentativas de estabelecer links de tudo e todos com o Canadá. Na foto, Gene posa ao lado de Thor, um completamente esquecido herói do heavy metal canadense.

Claro que Gene mal se lembra do sujeito, mas Nard já havia deixado Thor de sobreaviso. Ele aparece no meio da entrevista –mais velho e deformado que Mickey Rourke em “The Wrestler”– para entortar uma barra de aço! Simmons fica assombrado com a esquisitice, mas mostra um lado simpático pouco visto em outras entrevistas.



Outro que parece mais boa praça que de costume é Dave Mustaine, do Megadeth, que termina a entrevista segurando um abajur para ajudar na iluminação.

E o que acontece com Nardwuar, um cara que é nerd até o último fio de cabelo, quando entrevista um malaco do quilate de Snoop Dogg? Contra todas as expectativas, os caras se entendem muito bem!

Você fica o tempo todo esperando que o rapper deixe o repórter falando sozinho, mas ele se impressiona com os achados arqueológicos trazidos para a entrevista: uma fitinha cassete do Mr. T, produzida pelo próprio Snoop, e LPs raros do Richard Pryor (“Supernigger”) e do Zapp. Snopp Dogg fica com os discos e, perante o “protesto” de Nard, sentencia: “Tirar essas coisas de você é como tirar doce de uma criança”. Numa entrevista a outro repórter, disponível no YouTube, Snoop fala de Nardwuar com certa camaradagem: “The guy is officially bananas”, ou algo como, “O cara é definitivamente maluco”.



Outros que se divertem com as raridades trazidas pelo entrevistador são James Brown, Rob Halford e Tom Morello. Já Lee Ranaldo e Thurston Moore, do Sonic Youth, sacaneiam Nardwuar e acabam quebrando o disquinho que ele trouxera de presente…

Para quem se interessa por jornalismo rock, o arquivo desse canadense é um prato cheio.

E essa combinação do que é correto e incorreto na arte de entrevistar, revela, como saldo positivo, um lado dos músicos que não estamos acostumados a ver.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Quase famosos

No ano passado, o filme fez parte da programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Quando li o título e a sinopse, sabia que tinha que ver. Mas não vi. Por essas coisas que nem me lembro, acabei deixando passar.

Há duas semanas recebi uma cópia pelo correio. Um desses presentes que meus bons amigos me mandam de vez em quando – o DVD saiu lá fora recentemente. Finda a sessão solitária na sala de casa, eu enxugava as lágrimas.

Talvez você se assuste quando souber que estou me referindo a um documentário sobre uma esquecida banda de heavy metal. Chorar vendo metaleiros cinquentões parece estranho, eu sei, mas tenha paciência para ler até o final e você vai entender.

A banda que é o objeto de estudo do filme chama-se Anvil. Já ouviu falar? No começo dos anos 80 eles tiveram um pico de popularidade nesse ramo. Tudo graças a seus três primeiros discos: “Hard’n’Heavy”, “Metal on Metal” e “Forged on Fire”. Depois disso, o silêncio.

É uma dessas histórias que o leitor de RP conhece de trás pra frente – especialmente quando acontece com uma banda que gosta. O público abandona, o jornalismo rock dá de ombros e sobra aquele grupinho de admiradores que acha que todo o resto está louco.

Não é o meu caso com o Anvil. Lembro da banda no rescaldo de seu sucesso, mas nunca tive a oportunidade de ter um disco dos caras para confirmar se era mesmo tudo aquilo. Naqueles tempos –estou falando dos 80’s– conseguir certos LPs era mais difícil que praticar determinadas contravenções.

Tudo bem, você já está mais ou menos situado. Mas ainda deve estar se perguntando como um filme sobre uma banda dessas pode ter, muito mais que sensibilizado este blogueiro, arrancando elogios dos jornais mais importantes do mundo, de Michael Moore, da Spin e o escambau. Mais grave ainda: foi considerado por muitos críticos como o melhor filme já realizado sobre uma banda de rock.

O sucesso do documentário começa na constatação de que, nesses quase 25 anos que nos separam do penúltimo parágrafo, o Anvil continuou na ativa. Sim senhor, eles sumiram do radar, mas continuaram tocando. O mundo deixou de notar a presença deles, os fãs tornaram-se escassos e os caras, nos seus 50 anos de idade, estão aí.



Mas estão aí por quê? Esse é mais ou menos o tema que norteia “The Story of Anvil”. O documentário, espertamente, bota abaixo todas as aparências. Não glamouriza o fato de a banda ser veterana e ter um passado respeitável. Pelo contrário, com a medida certa escancara a dureza de vidas vividas com um pé no underground e outro no “mundo real”.

Sacha Gervasi, o diretor, não por acaso foi roadie do Anvil em meados dos 80’s e, veja as voltas que vida dá, quando cresceu tornou-se um roteirista importante em Hollywood. É dele o roteiro de “O Terminal”, filme estrelado por Tom Hanks e dirigido por Steven Spielberg.

Agora, sinta o drama: Gervasi usa seus recursos e talentos de roteirista para contar a história dos amigos de infância Lips e Robb Reiner, caras que, na metade da década de 70, fizeram um pacto para tornarem-se astros do rock. Ou morrerem tentando.

O filme acompanha o dia a dia de Lips e Reiner. O primeiro trabalha como entregador de refeições em escolas e orfanatos. O segundo pinta quadros e conserta coisas em casa para manter a sanidade. As respectivas esposas cuidam do resto. Os parentes não se conformam.

Você já viu filme de rock com essa abordagem? Rock star com pai, mãe, filho e esposa? Não vale reality show nem cair na armadilha de muitos críticos que compararam, equivocadamente, o Anvil com o Spinal Tap. Provavelmente não entenderam nada.

“The Story of Anvil” poderia, simplesmente, dar uma versão chapa branca da história da banda. Que eles têm mais de uma dezena de álbuns, que influenciaram esse e aquele artista e que estão há 30 anos mantendo a integridade musical. Balela. A vida cobra um preço que a câmera de Gervasi se dispôs a capturar.

Uma meia-dúzia de ícones do rock/metal –Lars Ulrich, Lemmy, Scott Ian, Slash, Tom Araya– enche a bola do Anvil logo na abertura do filme, mas a imagem desbota na cena seguinte: o vocalista e guitarrista Lips carregando marmitas no meio da neve canadense. Bucólico é pouco.

Quem militou, pelo tempo que seja, nos subterrâneos do rock com certeza deparou em algum momento com arquétipos do underground: produtores de show tão bem intencionados quanto trapalhões, fãs obsessivos, nerds, inconvenientes e dedicados. E o filme mostra tudo isso – em particular quando acompanha o Anvil em uma turnê pela Europa depois de não-sei-quantos anos. Acontece de tudo, mas o diretor, por razões óbvias, realça os piores momentos.

Lips e Reiner, que mantêm ainda hoje uma cativante brodagem juvenil, voltam para a mediocridade pós-turnê com uma nova meta: gravar “o” disco de suas carreiras. Para isso, estabelecem contato com o importante produtor Chris Tsangarides –ou CT– o mesmo que trabalhou com Sabbath e assinou o ótimo “Renegade”, do Thin Lizzy. Mas mais do que isso: o cara que gravou o disco que botou o Anvil no mapa há quase 30 anos: “Metal on Metal”.

O que se segue é uma via crucis atrás de verba e de gravadoras. Tudo muito bem balanceado com a rotina de trabalho e família em meio à qual o sonho do rock’n’roll parece uma loucura. Saudável, mas, ainda sim, uma loucura. E se você não se emocionar com os desabafos de Lips e com a cumplicidade do amigo-irmão Robb, está na hora de trocar de coração.

“The Story of Anvil” não é apenas o melhor filme sobre rock já realizado. É uma história que cala fundo em qualquer um que já viveu o bastante para ver parte de seus sonhos no fundo de uma gaveta, mas que, por algum motivo, continua perguntando: “E se…?”.

Sensível, melancólico e inspirador.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Life is beautiful



LIVING COLOUR
Via Funchal, São Paulo
15/10/2009


Texto Eduardo Abreu
Fotos Pati Patah


Que a indústria musical anda de pernas para o ar você já está cansado de saber. Pois só isso para explicar que o Living Colour – ganhador de Grammies, discos de ouro, headliner de festivais e afilhado dos Stones – tenha lançado seu novo álbum pela Megaforce Records, um famoso selo de metal dos anos 80.

Não que seja um desprestígio, mas o fato diz muito sobre o mercado do disco e as manobras que artistas jovens ou veteranos fazem para manter-se na ativa.

No domingo, dia 11, me encontrei com os integrantes do Living Colour após uma sessão de autógrafos em uma megastore em São Paulo. Will Calhoun, o reverenciado baterista, revelou um pouco sobre o momento: “Estamos reconstruindo nosso público na América. A Europa é um grande mercado para nós”.

Mas o Brasil tem seu lugar nessa história e é terra sagrada nas turnês da banda. No auge da carreira, fizeram um show apoteótico por aqui, no então importante festival Hollywood Rock. Retornaram pouco depois – em um show sold out no Palace, em São Paulo – para divulgar o álbum Stain. “Life is beautiful”, repete Calhoun toda vez que menciona uma visita ao Brasil.

Só que a banda acabou abruptamente e saiu de cena por cerca de 5 anos. “Eu sei que partimos alguns corações, mas não foi minha culpa”, diz Will, sorrindo. “Eu não fui a favor (da separação da banda), mas Vernon estava se divorciando na época e foi um período difícil para ele que é um cara muito sentimental”.

O rumor de que a volta da banda aconteceu após um puxão de orelhas do descobridor, fã e produtor Mick Jagger no guitarrista Vernon Reid tem o endosso moral de Calhoun. “Você tem que confiar nos Stones”.

A afinidade entre as bandas, aliás, permanece a mesma de 20 e tantos anos atrás. “Mantemos contato com eles. Especialmente Charlie Watts. E Doug, você sabe, tocou com Mick e os Stones. Também gravei com o Ron Wood”.

Essa volta do grupo no início do milênio já resultou em três visitas ao Brasil - 2004, 2007 e neste mês de outubro. O primeiro show da série fez parte da turnê do disco CollideOscope, embora o público, com o hiato de uma década, estivesse sedento por hits. A segunda passagem neste século 21 - quinta no total - foi um mero pretexto para matar saudades de ambas as partes. Mas agora, em 2009, a proposta é divulgar amplamente o exuberante The Chair in the Doorway.

Entre um café e um donut, Vernon Reid – que parece bem mais jovem que seus 51 anos – contou um pouco sobre o novo disco. “Se você gostou de CollideOscope, vai gostar (de The Chair). Ou melhor, se você gosta de tudo que já gravamos, vai curtir. Tem a minha palavra”. E prossegue: “Pretendemos começar o show tocando uma música de cada álbum. Uma do Vivid, outra do Time’s Up, uma do Stain e do CollideOscope. Depois faremos uma sequência de canções do novo álbum”.

E foi isso que o público que compareceu ao Via Funchal em número semelhante ao show de 2007 pôde conferir. A abertura com a quente “Middle Man”, seguida pela porrada “Time’s Up”, a pesada “Go Away” e a ainda mais pesada “Sacred Ground”.



Vernon, que se apresentou com uma combinação descolada de paletó xadrez, chapéu e óculos vermelhos, retificou o que tinha antecipado ao blog. O segmento do novo álbum dominou a parte central do show. Foram executadas “Burned Bridges”, “Method”, “Decadance”, o blues “Bless Those” e o que seria o hit do verão 2010 se o mundo ainda tivesse juízo: a ensolarada “Behind the Sun”.

No intervalo entre uma e outra faixa do repertório clássico, a banda apresentou vinhetas instrumentais cheias do improviso jazzístico que foi incorporado aos seus shows ao longo do tempo.

O guitarrista mostrava ali sua faceta “Masque” – a ótima banda paralela da qual é mentor e que esteve no Brasil há alguns anos. “Estamos preparando um novo disco do Masque. Inclusive, vai ter uma regravação do My Bloody Valentine. Sabe, essa é uma das bandas que nunca consegui assistir ao vivo. A outra banda que nunca consegui ver é o Radiohead”.

Pois parece ser essa cabeça rockeira e jazzista de Reid um pouco do segredo da alquimia sonora do Living Colour.

Mas seus colegas de bandas disputam igualmente a atenção. Doug Wimbish, como de costume, deslizou pelo palco extraindo sons que não costumam ser associados a um contrabaixo convencional. Durante a interpretação de “Bi”, do álbum Stain, seu primeiro com o Living Colour, Doug foi literalmente pra galera. O baixista – que já emprestou suas habilidades para gente como Annie Lennox, Depeche Mode e Madonna – solou no meio do público, brincando com o tema de “O Poderoso Chefão” e o famoso “Olé, olé, olé”, a canção de arquibancada.

Corey preserva o pulmão que impressiou os 7.000 presentes no antológico show de 1992. Nos primeiros versos de “Open Letter (to a Landlord)”, o cantor usa e abusa de todo seu espantoso recurso vocal. Como em 2007, quando escondeu o microfone e ainda assim sua voz era claramente ouvida de qualquer lugar do Via Funchal. A intepretação é comovente e arranca aplausos entusiasmados do público. A letra – que trata da desapropriação de imóveis em um bairro pobre – parece atemporal e colabora para o teor emotivo da interpretação.



“Eu sou do Bronx. Corey e Vernon são do Brooklyn. E Doug é de Connecticut”, revelou Will sobre as origens de cada integrante. A geografia não mente sobre os aspectos possivelmente autobiográficos de “Open Letter”.

Calhoun, que nasceu no jazz e tocou com gente do quilate de Pharoah Sanders, Wayne Shorter e Herp Alpert, já havia confidenciado ao blog que faria um novo solo de bateria durante a apresentação. “Temo que teremos um solo, sim”, brincou.

E a previsão se concretizou em grande estilo. Não apenas com um solo convencional de bateria, mas com o uso de diversos samplers, triggers, tambores étnicos, bases eletrônicas e recursos visuais como o par de baquetas com luzes coloridas.

Uma inovação em relação às últimas apresentações foi o uso dos telões para exibir o que se costumava chamar de vídeo-arte. Colagens e fusões em vídeo ilustravam cada canção. Assim, “Go Away” teve canhões e recortes de jornal (dava para ler o nome de Daniel Dantas em uma das manchetes!), “Glamour Boys” – que esquentou a pista – foi ilustrada pela sombra de um yuppie caçando dinheiro e um solo de Reid ganhou o apoio de um hipnótica espiral psicodélica.

Uma das sequências clássicas foi testada na passagem de som: “Elvis is Dead” – o esporro de sempre com um provocativo medley com “Hound Dog” – e seu encontro com “Type”, tal qual está gravado em Time’s Up. Nesse caso, um raro pecado. Em referência às interpretações mais formais do passado, “Type”, uma das grandes canções dos anos 90 em letra e música, foi, como no último show, executada em versão com improvisos que a descaracterizaram.

Mas se foi assim com “Type”, ninguém pode reclamar do eterno arrasa-quarteirão “Cult of Personality”, executado à risca e com direito aos famosos samplers com discursos de Churchill e Kennedy.

As covers foram as mesmas da última visita. “Papa was a Rolling Stone” e “Should I Stay or Should I Go” que, como de praxe, encerra o show. O público até correspondeu à brincadeira de Corey que cantava em tom de interrogação. Quando perguntava “Should I Stay?”, a massa gritava “yeah!”. E um sonoro “nooo!” quando a pergunta era inversa.

A empolgação no final fez Corey descer do palco durante uma jam com o tema “What’s your Favorite Color?” e cantar em meio aos fãs. Doug não fez por menos e encarou um crowd surfing com contrabaixo a tiracolo.

As despedidas tiveram o tom de cumplicidade de outras ocasiões, em que público e banda parecem parte da mesma turma. Os músicos, depois de 2 horas e meia de intensidade sonora, ainda tiveram fôlego para uma quase imediata sessão de autográfos.

São os caras que num domingo qualquer papearam sobre a saudade dos filhos atenuada pelo Skype, a alegria de dividirem um palco novamente, o amor pela música e a bênção para a filha do blogueiro que está para nascer. “Vai ser piloto de corridas ou baixista de rock. Vou mandar ‘love vibrations’ para ela durante o show!”, profetiza Vernon.

Que seja assim e seja feliz. Com uma música dessa qualidade, alguma coisa já começou a aprender.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Uma noite com o Big Voice

Em 1998, Ike Willis, lendário integrante de umas mais importantes encarnações da banda de Frank Zappa, aquela que compreende o fim dos anos 70 e toda a década de 80, apresentou-se no Brasil. Quem esteve no show garante ter sido aquela, uma experiência sensacional. E quem, como eu, fez a asneira de perder, até hoje se lamenta.

Mas não é que, ao espiar a lista de atrações da edição 2009 da Virada Cultural, deparo com o nome de Ike? Um desses raros casos de dinheiro público bem gasto. Mister Big Voice estava escalado para tocar na Praça da República, no domingo, às 17h30, ao lado da incrível Central Scrutinizer Band – uma das, ou talvez a melhor banda-tributo a Frank Zappa no planeta. Porém, o show que era imperdível, ou duplamente imperdível para quem não tinha visto Ike em sua primeira passagem por aqui, acontecia num cenário que não é o meu favorito: uma multidão (desinformada) em um local que não permite grande intimidade entre banda e público. Meu instinto disse que era melhor esperar alguma apresentação extra. E assim foi feito.

No último sábado, dia 9 de maio, Ike Willis repetiu a dose numa simpática casa chamada Aldeia Turiassu. A comunidade zappeira compareceu em número relativamente bom e recebeu em troca uma apresentação absolutamente bombástica.

Sempre ouvi dizer sobre os shows intermináveis do Grateful Dead na década de 70, mas nada podia me preparar para as quase 4 horas – isso mesmo! – de apresentação.

Ike subiu ao palco no seu estilo easy going e logo assumiu a posição de mestre de cerimônias. Apresentou cada um dos 8 integrantes da banda por nome e sobrenome, sem colar, e ainda complementou: “Nós somos a Central Scrutinizer Band”. Clara demonstração da química e da confiança que tem nos músicos brazucas.

Mister Willis mantém sua famosa voz de trovão e caprichou na dose em canções da obra-prima Joe’s Garage. A execução monumental de “Catholic Girls”, “Fembot in a Wet T-Shirt ” e “Why Does it Hurt When I Pee?” levaram a platéia o mais perto que se pode chegar de um show de Zappa sem Zappa.

Com um público totalmente fanático – a ponto de se abraçar e comemorar quando o clássico favorito era executado – e conhecedor de inglês, Ike “Thing Fish” Willis desandou a papear e contar causos. Pediu desculpas pelos 11 anos sem aparecer no Brasil e confidenciou que a Central Scrutinizer Band o “autorizou” a trazer a esposa na viagem. E a pequena homenagem em “Montana”, que teve o refrão alterado para “I’m moving to São Paulo soon”, dá a medida da curtição.

O talento da Central Scrutinizer, após tanto tempo de estrada, ainda parece impressionar Ike. Ele não perdia a oportunidade de cantarolar “great musicians” entre uma faixa e outra. Mas não era pra menos: o discreto guitarrista Rainer Pappon era um que estava com o diabo no corpo! O homem reproduziu solos com precisão matemática e sensibilidade zappiana. E o resto da banda acompanhava o virtuosismo com a simpatia que já virou marca registrada. O “líder” Mano Bap, então, observava Ike com os olhos brilhando, como se lembrasse, a cada minuto, que aquele sujeito ali no palco foi um dos membros mais importantes da dinastia Zappa.

Ike Willis, que volta e meia sentava numa banqueta, fumando um cigarrinho e sempre com uma toalha sobre os ombros, regia os músicos e arriscava pequenos improvisos com a malícia de quem conviveu por cerca de 15 anos com o mestre em pessoa.

Além das já citadas, muita coisa finíssima foi executada na primeira parte do set: “Peaches in Regalia”, “Andy”, “Uncle Remus”, “Florentine Pogen” e a complexa “Inca Roads”.

Não que precisasse de alguma outra faísca de magia para fazer o show especial, mas Mister Willis também sacou a sincronicidade da data: “É Dia das Mães e, como vocês sabem, os Mothers of Invention costumavam fazer apresentações especiais no Halloween ou no Dia das Mães”.


Zappa e Ike Willis ao vivo


Após um descanso de 20 minutos e lá estava a CSB de volta e ainda mais afiada. Ike fez a apresentação: “Essa é uma bela canção escrita pelo meu irmão Frank. Crianças, cubram seus ouvidos, pois ela se chama…”. E aí foi interrompido pelos scrutinizers que, de farra, o advertiam que ele não devia pronunciar o título. Willis retrucou e disse que era americano, então não ia ter grandes problemas e, enfim, anunciou “I Promise no to Come in your Mouth” (“Prometo não Gozar na sua Boca”).

Ocasionalmente, um ou outro fã mais alterado pedia alguma faixa (“Watermelon in Easter Hay”, “Whippin’ Post”, etc) e, já não me recordo como começou, mas Ike respondia na maior gozação: “you’re cheating!”. A coisa, para quem conhece os discos ao vivo de Zappa, virou uma gag recorrente no segundo set da noite.

Aos que tinham coração forte, o repertório ainda reservou “City of Tiny Lights” (“Essa música poderia ser sobre São Paulo”), “Sofa” (“Eu canto em alemão, italiano, japonês. Tudo por causa daquele cara ali” – apontando para um cartaz de Zappa) e uma absolutamente comovente interpretação de “Outside Now” que rendeu mais histórias: “Quando fomos gravar o ‘Joe’s Garage’ em 1979, a ideia era que fosse um single. A faixa-título no lado A e ‘Catholic Girls’ no B. Só que nos trancamos no estúdio e em 5 dias tínhamos escrito 21 faixas! O Frank fez algumas músicas para mim, mas a câmara de eco ficava do outro lado do estúdio e, depois de 3 meses e meio gravando o disco, minha voz estava um fiapo. Essa (‘Outside Now’) é uma das faixas compostas para mim”.

Ike, que se declarou o maior fã de Zappa do mundo, foi aplaudido a noite toda e, percebendo a sinergia do lugar, brincou: “Vocês estão se divertindo? Bem, eu acho que posso estar me divertindo esta noite… Por favor, não me deixem voltar para os EUA, mas, como eu disse, eu posso estar me divertindo”.

Com quase 4 horas de show, ainda conseguiram botar o público pra pular – ou quase isso – com “Keep it Greasey” e mais um interpretação épica de “Whippin’ Post”, dos Almann Brothers, canção eternizada por Zappa. Não fosse o bastante, o público, às 5 da manhã, ainda pediu um bis e foi atendido com “Zomby Woof”.

Uma performance colossal que, segundo anúncio de Ike, pode se repetir no “Zappa Day”, em 21 de dezembro próximo, em São Paulo. Então, fica aqui uma possível boa notícia: se você perdeu, não precisará esperar 11 anos...

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Disco é cultura

De acordo com a GloboNews, a indústria musical tratou o mês de dezembro como o “último Natal do CD”. Não é o caso, ainda, de decretar a morte do formato sob o ponto de vista prático, mas a constatação tem um caráter mercadológico que representa o fim de uma era. A era do disco.

Há 5 ou 6 anos, a obsolescência do CD era uma hipótese um tanto remota e mais ainda era a idéia de que a indústrial fonográfica pudesse ruir. Mas isso está acontecendo sob nossos narizes – ou pela indiferença de nossos ouvidos.

Tudo que se tinha para dizer sobre a popularização da música digital, pela ótica tecnológica, já foi dito. Escrevi, há um ou dois anos, para a própria Rock Press, que essa portabilidade propiciada pelo MP3 é reflexo do modelo de vida dos anos 00, onde parar para ouvir um CD na íntegra é luxo ou perda de tempo. A música tornou-se acessório, uma trilha sonora para as conversas no MSN, para o tédio nos escritórios ou para a impaciência no trânsito. Nada além.

Criar formas de transportar a música para que não se “perca tempo” parece a idéia por trás dos últimos suportes – inclusive o CD, que propiciou a reprodução no computador, no discman e no automóvel, sem a necessidade de trocar o LP pela fita cassete, mas que, afora os objetivos, manteve a viabilidade comercial do disco.

Antes de cair na tentação de me repetir e terminar reproduzindo todas as colocações do texto citado, vamos ao que de fato interessa: tomar uma posição. Sim, porque muito se fala da democratização da música proporcionada pelo download irrestrito versus as perdas financeiras enfrentadas por músicos e gravadoras. Mas a questão aqui pretende ser tratada pelo viés sociocultural: qual a importância da música gravada como registro de seu tempo, como substituir a idéia de álbum que vem norteando a música popular há mais de 40 anos e o que fazer pela boa formação de novos ouvintes.

Comprar essa briga agora é mais do que nadar contra a maré. É parecer ridículo e deslocado da realidade. O Metallica, por motivos que à época pareceram tacanhos, e talvez o fossem, levantou-se contra o pioneiro Napster e foi achincalhado por fãs e outros artistas. Então o que dirá requentar esse discurso em 2009, com a prática do download já amplamente disseminada? O negócio agora é apenas sair de cima do muro. De que lado você está, afinal: dos que acham que a música digital é uma bênção ou uma maldição?

Esses dias, de onde menos esperava, ouvi uma declaração curta e bastante sincera acerca da questão. Em seu programa de entrevistas – exibido em São Paulo pela TV Gazeta –, Ronnie Von interrompeu seu convidado, um divulgador musical que contava causos insípidos, assim que ouviu a palavra mágica “disco”. O ex-cantor de “rock” psicodélico e ídolo da Jovem Guarda encheu a boca pra dizer: “Disco! Isso, sim. Vinil! Que coisa boa. O disco era impirateável”. E não é verdade? Ronnie disse o óbvio, mas às vezes o óbvio é o bastante.

A música era importante na vida das pessoas porque, fora a conjuntura socioeconômica favorável, ainda era algo restrito. O disco era um objeto palpável que possuía valor comercial. E agora a música, sem a importância de outra época e em oferta gratuita e abundante, tornou-se banal. Não apenas porque é oferecida em quantidade irreal (informação demais é informação nenhuma), mas também porque a qualidade é baixa. Já disse em outra ocasião e repito: as pessoas estão se limitando a ouvir arquivos. E estes arquivos, via de regra, já chegam ao destino final achatados e são reproduzidos por miseráveis caixas de som chinesas para computador.

Se parece anacrônico imaginar que alguém vá queimar um CD para cada álbum obtido em forma digital, também parece significativo lembrar que a venda online de música esteja caindo. As pessoas que já não pagavam pelo formato físico, passaram a economizar seus trocados também nos iTunes e Sonoras da vida. A informação é do jornal Metro e foi publicada antes da crise econômica global, portanto não tem relação direta com o queda no consumo. É, apenas e lamentavelmente, um sintoma da queda de interesse.

Li, aqui mesmo no portal RP, que Gene Simmons andou dizendo que o “mercado está uma bagunça” e, indiretamente, culpou os fãs pela demora em gravar um novo álbum do Kiss. Gene pensa mais em dinheiro do que em música, mas não deixa de ser sintomático que alguém que fez carreira lançando discos defina o mercado atual como “uma bagunça”. Gravar pra quê?

Com a desvalorização artística e comercial do disco, os efeitos começam a ser vistos em todo o lugar: cai drasticamente o nível das gravações (se o consumidor ouve arquivos, não precisa de nada melhor), redes de lojas – como a famosa Tower – baixam as portas, selos independentes têm sua existência ameaçada e toda a cadeia produtiva e criativa antes usada para gerar o produto maior, aquele que balizava a indústria, o fã e o crítico, passa a correr riscos.

Em um edição qualquer de 2008, a revista de propaganda Meio & Mensagem publicou notícia a respeito do interesse da Microservice – um dos maiores fabricantes de CDs e DVDs do Brasil – em ingressar no aquecido mercado de motocicletas… Significa algo, não?


Longe da esfera corporativa, cabe aqui uma experiência pessoal e que ilustra este novo cenário aplicado à realidade do dia-a-dia. Uma das mais charmosas lojas de discos de São Paulo estava situada no bairro onde passo a maior parte do meu tempo. Pelo menos uma vez por mês, eu fazia uma visita à Nuvem Nove para comprar algum CD. Não só porque eu, naturalmente, me interessava em adquirir tais títulos, mas também para dar minha parcela de contribuição e tentar manter a loja viva – ainda que jamais tenha ouvido dizer que passasse por qualquer dificuldade financeira. Foi ali que, além de comprar discos de Vernon Reid, Buzzcocks, Isaac Hayes e edições do ótimo Poeira Zine, batia papo sobre música com os simpáticos funcionários e frequentadores.

Toda vez que passava com um amigo em frente da loja, dizia: “Aproveitem para curtir esse lugar antes que feche”. Pois aquele comércio que lembrava o de John Cusack em “Alta Fidelidade”, encerrrou as atividades no primeiro trimestre de 2008. Lamento ter acertado a previsão, mas outros também sentiram a ausência daquele ponto de referência.

Fiquei sabendo do fim da Nuvem Nove por intermédio de uma comovente coluna de Nando Reis no Estadão. O músico, criado ali no Itaim Bibi, bairro que acolhia a loja, descreveu com sensibilidade o que para ele é um sinal dos tempos. Para saber mais sobre o fechamento da loja, assista a esse documentário aqui.

E se este é apenas um exemplo próximo e que me é mais caro, não faltam outros. No momento em que escrevo este post, estou envolvido com um projeto para revitalizar um dos selos punks mais ativos do país e evitar que tenha o mesmo fim da Tower Records ou da Nuvem Nove.

Não trata-se de negar os aspectos positivos da inclusão digital, de defender o modelo predatório das grandes corporações do disco e, muito menos, de cogitar a retrógrada lei de criminalização do download. O Caixa Preta apenas assume sua impopular posição à favor da cultura do disco e sugere a reflexão dos que vivem dentro da bolha digital.

Como sempre, este texto tem uma enquete correspondente. Participe!

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Do VMB e outros demônios

O VMB é aquele tipo de atração que a gente ama odiar. As emoções descontroladas dos novos “artistas” , a empáfia dos mais estabelecidos, o ar blasé de um convidado e o deslumbramento de outro. Tudo sob a condução de algum mestre de cerimônias com um sketch cômico porcamente transplantado do modelo americano.

Semana passada aconteceu a edição 2008 do evento. Um tragicômico testamento que a música pop brasileira faliu de vez.

Mas nada é por acaso. Há cerca de 2 anos a MTV Brasil criou um factóide. A emissora distribuiu releases avisando meio mundo que deixaria de exibir o produto que a consagrou: os vídeo-clipes.

A estratégia mercadológica do canal já era há muito conhecida e os clipes continuaram sendo exibidos nos parcos horários que lhes eram reservados. Nada de novo.

Seja como for, por trás da falsa notícia do banimento dos clipes na MTV Brasil existe uma óbvia realidade: esse mundo conectado e digital gerou um tipo de (má) formação no público jovem, esse bicho estranho com déficit de atenção. A música tornou-se a trilha sonora para as horas no computador. Com muito custo, os arquivos viram um CD-R. Ou o ringtone da vez. O novo fã de música gosta mesmo é do artista, da roupa do artista, da tatuagem do artista.

Fruto dessa realidade, a edição de 2008 foi um marco. A premiação em si, você sabe, só existe para manter o evento que é uma das boladas publicitárias da casa. Com a mirrada produção de clipes atual, as categorias são genéricas. Uma espécie de Prêmio Multishow melhorado.

Sem a necessidade de critérios algo técnicos, o VMB 2008 consagrou mais uma vez o emo – praga que mostra-se mais resistente do que se julgava. Das poucas categorias hoje existentes, o NX Zero foi o maior ganhador. Antes fosse por algo como “Melhor banda que canta chorando” ou “Melhor banda que chora cantando”, mas sua torturante “Pela Última Vez”, acredite, foi eleita o hit do ano. Que tenha sido, de fato, pela última vez.

O evento também é uma espécie de quem é quem no pop rock nacional. Os dinossauros do BRock estão lentamente se extinguindo. Sentados na platéia, com sorrisos amarelos, assistem a uma turma que fugiu da Malhação tomando seu lugar.

Algumas bandas de safra mais recente também parecem rebaixadas à Segunda Divisão do rock nacional. É o caso de CMP22 e Charlie Brown Jr., que hoje estão à sombra dos novos emos.

Claro que, com prêmio ou sem, na Série A ou na B, ninguém perde a pose. A festa acontece em São Paulo, mas é como se fosse Los Angeles. O show business brazuca é bem mixuruca – de uma dúzia de artistas, quase sempre os mesmos –, mas tenta-se manter um glamour extraterreno.



Só que a falta de charme é também musical. Se o VMB escolher a desculpa de que apenas irradia o que acontece na música brasileira, há de se lembrar que o evento já abrigou shows de boas bandas em bons momentos. Planet Hemp, Sepultura, Racionais MCs e Chico Science & Nação Zumbi já passaram por ali. Os novos tempos são bicudos.

Não assisti à apresentação de Ben Harper & Vanessa da Matta, nem à de Marcelo D2. A estréia dos Nove Mil Anjos – previsão do Caixa Preta confirmada em grande estilo – vi só no YouTube. Uma pataquada apresentada por um dos cachorros grandes como superbanda. Peu Souza, veja só, virou, nas palavras do apresentador convidado, o responsável por alguns dos maiores hits do rock nacional em todos os tempos…

Mas se a empreitada rockeira de Junior Lima pode ser chamada de tola, como classificar a excrescência musical dos playboyzinhos curitibanos do tal Bonde do Rolê?

E que tal mais uma das intermináveis canjas de Pitty, com suas caras e bocas de sempre, com o som do tamanho de um barzinho da 13 de Maio?

Só que teve mais. O incensado Bloc Party – mais uma invenção inglesa dos anos 00 –, lançou mão de um constrangedor recurso: o velho playback à la Cassino do Chacrinha. Nem o “rock on, man!”, de Dinho Ouro Preto, os estimulou... Uma metáfora que resume tudo. Genial.

Mas quem sabe faz ao vivo, certo? Errado. O encontro abominável de Chitãozinho & Xororó com Fresno que o diga. Os sertanejos, com certeza, já viveram dias melhores - no mínimo, do ponto de vista comercial. Aceitar uma parceria de tão baixo quilate só mesmo com muita coca-cola.

Por fim, um clipe com 5 minutos do mais puro terror. Uma gracinha inventada pelo bom comediante Marcelo Adnet transformou-se num Live Aid mongolóide que diz muito sobre o estado das coisas na música brasileira.

Caem as máscaras e o show bizz sílvicola revela-se em sua mais gloriosa mediocridade: artistas de cuia na mão pagando um verdadeiro King Kong para o canal a quem – só pode ser – eles devem até as calças.

Se você perdeu tudo isso, não se preocupe, a MTV vai dar um show de reprises. Fique de olho e separe a cerveja. Você vai precisar.