terça-feira, 26 de agosto de 2008

O diabo brasileiro

O tema já foi tratado com mais espaço no blog Cine RP, e o Caixa Preta assina embaixo: o novo filme de José Mojica Marins é imperdível.

Mojica, se você não sabe, é o homem que criou o personagem Zé do Caixão - figura que habita o imaginário popular brasileiro há pelos 40 anos. Ao longo do tempo, criador e criatura se misturaram para o bem e o para mal.

Em busca de espaço na mídia para promover sua persona e tentar cavar algum projeto, o cineasta aceitou de tudo: cortou as famosas e enormes unhas no extinto programa "Viva a Noite", do Gugu Liberato, enquanto seu amigo Zé Ramalho interpretava um número musical (me lembro de ficar comovido com as lágrimas de Mojica a cada unha cortada...). Virou apresentador da sessão de filmes B da Bandeirantes, Cine Trash. Marcou presença e rogou pragas em vagabundos programas de auditório. E provavelmente fez algum bico nas Noites do Terror do Playcenter, famoso parque de diversões paulistano.

Por essas e outras, Mojica pagou o preço da exposição forçada de Zé do Caixão. Mais de uma geração o conhece apenas como a figura folclórica da TV, e não como o diretor de cinema responsável por maravilhas como "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" e "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver". A criatura engolindo o criador.

Minha geração, por acaso, tem mais reverência. Tanto pela criatura quanto pelo criador. Quando criança, eu e o resto de meus colegas de classe e vizinhos morríamos de medo do Zé do Caixão. Motivo: o infame programa "Um Show do Outro Mundo" exibido pela TV Record. Ali, Mojica mostrava de tudo: despachos da pesada em terreiros de macumba, histórias de assombrações como a do fulano que teve a cabeça decepada e ficou vagando decapitado pelo mundo, além de outras aberrações.

Só no início da idade adulta é que tive a chance de conhecer o que realmente interessa no trabalho desse gênio da raça: sua obra cinematográfica.

No início dos anos 90, o saudoso Cineclube Elétrico, da Rua Augusta - onde vi filmes e vídeos de rock e algumas preciosidades do cinema -, fez uma exibição especial de "O Despertar da Besta". Era uma sexta-feira, 13. Ouvi a chamada no rádio e me mandei para o cinema a fim de assistir, finalmente, a um filme de Mojica na tela grande. E o que é melhor, ainda teria a chance de conhecer o homem em pessoa (sim, o Zé do Caixão apareceria no final da sessão para bater papo com o público).

Não mais do que 6 testemunhas compareceram ao Elétrico para prestigiar a exibição. Uma delas, o então editor da Bizz André Forastieri. E o filme de 1969 é muito bom: bizarro e lisérgico na medida. Ao fim da sessão, o filho de Mojica avisou aos gatos pingados que seu pai estava atrasado, mas a caminho. Dez minutos depois, todos se mandaram dali sem encontrar o Zé...

Nesses 17 ou 18 anos que separam a melancólica ida ao Elétrico, Mojica foi redescoberto. Em boa parte por causa de outro André, também ex-Bizz. A divertida e completíssima biografia "Maldito", escrita por André Barcinski e Ivan Finotti, botou, em certa medida, Zé do Caixão na pauta jornalística. Mais do que isso: Barcinski, que já havia feito o link entre o diretor e a cultuada distribuidora americana Something Weird, também realizou premiado documentário sobre Mojica. Na América, Zé do Caixão virou Coffin Joe e conquistou um número razoável de admiradores.

Todas essas oportunidades juntas não deram em coisa alguma para o diabo brasileiro. Mojica continuou pingando nos programas de TV e sonhando com um novo longa-metragem que nunca chegava. Nunca até ganhar o grande prêmio em um concurso de roteiros e viabilizar seu projeto de, pasme, 1966: "Encarnação do Demônio"!

O filme fecha a trilogia iniciada pelos ótimos "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" (1964) e "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver" (1966). O plot continua de onde o ex-coveiro Zé do Caixão tinha parado: o homem quer gerar o filho perfeito para sucedê-lo e continuar sua linhagem de sangue de tocar o terror nesse mundo de marionetes humanos. Parece estranho? Não se espante, a filosofia "mojiquiana" é bastante singular.

O resultado superou as expectativas e, provavelmente pela primeira vez na carreira, o diretor recebeu elogios de todas as partes.

Para mais detalhes sobre o filme, vale uma visita ao blog Cine RP. Aqui, me limito a rápidas considerações.

"Encarnação do Demônio" poderia - e deveria - ter arrebatado o público jovem que se esbalda com franquias como "Jogos Mortais" e "O Albergue". O filme é sangrento, sádico, explícito e bizarro na dose exata. Com um orçamento pífio para os padrões internacionais, a brava gente envolvida nessa produção saiu-se com uma obra de acabamento muito bom, direção de arte e efeitos especiais bem decentes.


"Encarnação do Demônio" não caiu em dois grandes riscos: revelar o possível cansaço de um diretor veterano ou resultar em algo acidentalmente engraçado/constragendor. Muito longe disso.

O roteiro é esperto e rejuvenesceu a idéia do personagem Zé do Caixão, transpondo com muita eficiência suas doideiras para o mundo atual. Mérito do próprio Mojica, que juntou-se a dois jovens talentos brasileiros: o diretor de curtas de terror Dennison Ramalho e o produtor e diretor Paulo Sacramento, do cultuado "O Prisioneiro da Grade de Ferro".

Com tudo isso, "Encarnação do Demônio" revelou-se uma aposta inteligente. Não apenas fez sua contribuição para revitalizar o moribundo cinema de gênero no Brasil (embora as fracas bilheterias causem desgosto), mas, acima de tudo, deu a José Mojica Marins o maior reconhecimento que este poderia receber em vida: terminar sua carreira em grande estilo. Ele merece.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O último "Bad Mutha"

Em 1992, uma importante geração de artistas completava 50 anos de idade. Uma matéria publicada à época, salvo engano na Folha de S.Paulo, se referia ao fato citando um tal "efeito horizonte", que nada mais é do que a idéia de que determinados períodos do tempo produzem um número incomum de mentes brilhantes.

Não sei com que freqüência boas e novas fornadas de gente criativa surge no mundo, mas cada vez que morre um grande músico, me parece que não teremos um sucessor à altura.

Ontem morreu Isaac Hayes, um dos grandes mestres do soul. Pergunto ao leitor de RP: quem seria seu substituto na música negra contemporânea?


Isaac não foi apenas o criador da premiada e célebre trilha sonora de "Shaft", que lhe rendeu inclusive o Oscar. O cantor, compositor e arranjador é autor de um dos álbuns essenciais da soul music: o brilhante "Hot Buttered Soul", lançado em 1969, dois anos antes de "Shaft".

A riqueza dos arranjos e sua voz de veludo, ajudaram Isaac a fazer história na gravadora Stax, grande rival da Motown na década de 70. Além disso, o músico ostentava o estilo "bad mutha", como ele gostava de chamar, que era composto pela cabeça raspada, os óculos escuros e alguma corrente de ouro que pesasse pelo menos 2 kilos. E, claro, nada de usar camisa.

Em tempos de luta pelos direitos civis nos EUA e do subgênero de cinema batizado de blaxploitation, que o próprio Hayes ajudou a popularizar como ator, esse visual era, acima de tudo, uma declaração de auto estima, estilo e malandragem. Coisa que os imitadores baratos de hoje parecem desconhecer.

Em sua fase mais inspirada, Isaac Hayes gerou ainda outro clássico: "Black Moses", também de 1971. O disco tinha uma capa sensacional - o LP se abria em formato de cruz, estampando a foto do cantor como o "Moisés negro". A ótima editora Taschen incluiu a capa deste álbum no simpático livro "1000 Record Covers".

Na metade da década de 70, a Stax praticamente faliu e Isaac estava todo enrolado em contratos e dívidas com a famosa gravadora de seu estado natal (Tennessee). Ele assinou sua rescisão para tentar minimizar o estrago e montou seu próprio selo: Hot Buttered Records.

Hayes embarcou nos embalos da disco music e produziu dois álbuns bem decentes - um deles instrumental - baseado na sonoridade que então tomava a América de assalto. Mesmo com o relativo sucesso, o selo também afundou em dívidas e, tal qual James Brown e tantos outros, Isaac viu seu patrimônio ir para o vinagre.

O artista ensaiou uma volta nos anos 80 - o disco "Love Attack" é bastante subestimado - e só começou a se recuperar financeiramente quando tornou-se o dublador oficial do esperto personagem Chef, do seriado South Park.

Depois de anos trabalhando na série, Hayes rompeu com Matt Stone e Trey Park - criadores do ácido desenho animado. Motivo: um episódio que satirizava a cientologia, "religião" da qual era fervoroso adepto.

Coincidência ou não, Isaac - pai de 12 filhos - começou a retomar a carreira musical depois que abandonou South Park. Ele voltou à ressuscitada Stax e planejava lançar um novo álbum em 2009 - seria seu primeiro de inéditas desde "Raw & Refined", de 1995.

De tudo que produziu ao longo de 4 décadas, Isaac Hayes será lembrado pela trilha sonora de "Shaft", que inclui momentos de pura sofisticação musical como "Cafe Regio's" e "Do Your Thing".

Muitos textos já foram escritos sobre a importância desse álbum para a cultura negra norte-americana e parece unanimidade que, de certa forma, Isaac foi o cara que conseguiu, de uma tacada só, representar a sonoridade de toda uma época e, por efeito, enterrar a década anterior. É como se os primeiros segundos de "Theme from Shaft", o famoso chimbau e a guitarra com pedal wah-wah, sinalizassem que os anos 70 tinham chegado. Não é pouco.

Caixa Preta recomenda:



sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A trilha sonora de cada dia - #1

Embora seja um colaborador antigo da casa – acho que minha primeira matéria foi publicada na RP #3 ou #4 -, relutei um pouco em aceitar um blog no portal. Isso porque, em10 anos, é fácil perceber como a vida limita nosso tempo para coisas legais. E falta de tempo é algo que, definitivamente, não combina com a idéia de blog.

Mas, indo contra essa lógica e sendo teimoso, aí está: topei o projeto de manter um blog no portal RP e falar de música com paixão e sem compromissos formais chatos.

E o tema do primeiro post me parece uma boa síntese disso…

Como trabalho com comunicação e desde (quase) sempre com pessoas que gostam de música, a trilha sonora é uma freqüente no dia-a-dia.

Hoje deparei com uma seleção surreal no iTunes e que me fez perceber justamente isso que citei no início do texto: a passagem do tempo.

Li que o Judas Priest vai tocar no Brasil em novembro. Faltam quase 4 meses inteiros para o show e os ingressos já estão à venda. Exagero? Não sei. Mas o que não falta é fã de metal no Brasil e certas bandas de certa geração reciclam seu público com uma facilidade impressionante. O que só comprova que o heavy metal é o gênero juvenil por excelência.


Momento máquina do tempo:
Nunca fui fã de Judas Priest. Nem quando tinha 14 ou 15 anos e estava na faixa de audiência da banda. Mas gostava de algumas músicas. Me recordo que gravei em fita cassete o álbum ao vivo “Unleashed in the East” – direto de um jurássico programa de rádio de São Paulo chamado Sessão Rockambole. Eles tocaram o disco na íntegra e, da FM, ele foi parar numa das minhas fitinhas BASF laranja-e-preto.

Alguns anos depois, ganhei de presente de um tio sul-africano que estava em visita ao Brasil, um LP do Lionel Ritchie. Em plena efervescência rockeira, o querido Uncle Tony me presenteia com uma coletânea do cantor de “Hello” e “All Night Long”! As intenções foram as melhores possíveis, mas disco era artigo de luxo naquela época – estamos falando de 1985 – e preferi ser menos político e mais prático: pedi licença e fui trocar o LP na minúscula loja do centro de São Paulo.

A coisa mais próxima do rock que eu gostava e que encontrei por lá foi o disco “Hell Bent for Leather”, do Judas Priest. Fiz a troca, mas também não foi uma grande emoção. O álbum era mais-ou-menos e a única música boa era a faixa-título.

De volta a 2008:
Terminei de ler a notícia sobre a vinda do Judas, eternamente com Rob Halford, KK Downing e Glenn Tipton em sua formação, e, em dois cliques, abri o iTunes pra ver se achava alguma coisa da banda em meio aos 27 GB de música do meu Mac.

Pior é que, sei lá como, existe uma pasta do Judas Priest no player! Nem me lembrava disso e, suponho, os arquivos foram parar ali por conta de algum amigo que descarregou seu iPod.

Ouvi umas 10 músicas. Incluindo “Hell Bent for Leather”, que hoje ainda soa bacaninha, e “Freewheel Burning”, que tinha um video-clipe hilário. Não aguentei passar da décima faixa. Os músicos são bons para o estilo, mas a maçaroca de riffs cansa qualquer um. E se as guitarras são estridentes, a voz de Rob Halford é ainda mais. Quase todos os clichês do metal estão condensados no Judas Priest. Sem a pretensão de ofender os fãs, mas é o material de trabalho do Massacration.

Depois dessa, e para descansar os ouvidos, dei a vez para a coletânea de hits do Tears for Fears,“Tears Roll Down (82-92)”. E que diferença!

A proposta é outra, claro, e não sou muito adepto a comparações, mas como evitar que o playlist esquizofrênico me leve a pensar no abismo existente entre as duas bandas?

Tudo o que falta em classe ao JP sobra a seus conterrâneos Roland Orzabal e Curt Smith. Arranjos e vocalizações primorosos se juntam a um instrumental refinado sob uma gravação nível AAA.

A concepção artística ultrapassa seu tempo, ainda que o Tears for Fears esteja emoldurado nos anos 80 como o pop-rock bom daquela época.

Só que, ao contrário da turma das correntes, calça de couro e motocicleta, seu retorno não foi saudado com o entusiasmo devido. O álbum que marcou a volta da dupla Orzabal & Smith em 2004, esperta e ironicamente intitulado “Everybody Loves a Happy Ending”, não repercutiu o que merecia, embora as críticas que li tratem o trabalho como um comeback triunfal. Uma passada de olhos nas emocionadas resenhas de fãs na loja virtual Amazon.com dá a idéia de como os caras acertaram em cheio.

O Judas Priest, por sua vez, gravou um disco bem sucedido para os padrões de hoje – seu segundo após a volta de Halford – e com um título que só confirma o aspecto juvenil do metal tradicional: “Nostradamus”. Parece que foi o primeiro trabalho da banda em 3 décadas a emplacar na parada da Billboard. Surreal!

É a sensação de passagem do tempo de que estava tratando lá nos primeiros parágrafos: talvez eu não conseguisse entender, na época em que eram populares, o poder de canções maravilhosas como “Mad World” e “Pale Shelter”. Os 90’s precisaram chegar para me fazer entender o Tears for Fears.

Essa mesma coletânea que hoje salvou minha tarde, foi adquirida por mim em seu ano de lançamento e foi quase uma revelação, Fui atrás do CD em parte por conta da excepcional “Laid So Low”, canção-bônus escrita por Orzabal especialmente para a compilação, numa época em que Curt Smith já havia debandado do Tears for Fears. Mas não tem desculpa: na década de 80 eu não entendia o TFF.

Nos tempos de adolescente, até o razoável Judas Priest atraía mais minha atenção, mesmo sem jamais ter sido um favorito da casa.

E o lado bom de tudo isso é poder relativizar a importância da música em cada época da sua vida. Hoje dá pra entender que o Judas Priest soe meio chucro e caricato, mas ainda assim achar “Hell Bent for Leather” e “Breaking the Law” bacanas.

Mas passar de 10 músicas, aí, não dá. =P