Mojica, se você não sabe, é o homem que criou o personagem Zé do Caixão - figura que habita o imaginário popular brasileiro há pelos 40 anos. Ao longo do tempo, criador e criatura se misturaram para o bem e o para mal.
Em busca de espaço na mídia para promover sua persona e tentar cavar algum projeto, o cineasta aceitou de tudo: cortou as famosas e enormes unhas no extinto programa "Viva a Noite", do Gugu Liberato, enquanto seu amigo Zé Ramalho interpretava um número musical (me lembro de ficar comovido com as lágrimas de Mojica a cada unha cortada...). Virou apresentador da sessão de filmes B da Bandeirantes, Cine Trash. Marcou presença e rogou pragas em vagabundos programas de auditório. E provavelmente fez algum bico nas Noites do Terror do Playcenter, famoso parque de diversões paulistano.Por essas e outras, Mojica pagou o preço da exposição forçada de Zé do Caixão. Mais de uma geração o conhece apenas como a figura folclórica da TV, e não como o diretor de cinema responsável por maravilhas como "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" e "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver". A criatura engolindo o criador.
Minha geração, por acaso, tem mais reverência. Tanto pela criatura quanto pelo criador. Quando criança, eu e o resto de meus colegas de classe e vizinhos morríamos de medo do Zé do Caixão. Motivo: o infame programa "Um Show do Outro Mundo" exibido pela TV Record. Ali, Mojica mostrava de tudo: despachos da pesada em terreiros de macumba, histórias de assombrações como a do fulano que teve a cabeça decepada e ficou vagando decapitado pelo mundo, além de outras aberrações.
Só no início da idade adulta é que tive a chance de conhecer o que realmente interessa no trabalho desse gênio da raça: sua obra cinematográfica.
No início dos anos 90, o saudoso Cineclube Elétrico, da Rua Augusta - onde vi filmes e vídeos de rock e algumas preciosidades do cinema -, fez uma exibição especial de "O Despertar da Besta". Era uma sexta-feira, 13. Ouvi a chamada no rádio e me mandei para o cinema a fim de assistir, finalmente, a um filme de Mojica na tela grande. E o que é melhor, ainda teria a chance de conhecer o homem em pessoa (sim, o Zé do Caixão apareceria no final da sessão para bater papo com o público).
Não mais do que 6 testemunhas compareceram ao Elétrico para prestigiar a exibição. Uma delas, o então editor da Bizz André Forastieri. E o filme de 1969 é muito bom: bizarro e lisérgico na medida. Ao fim da sessão, o filho de Mojica avisou aos gatos pingados que seu pai estava atrasado, mas a caminho. Dez minutos depois, todos se mandaram dali sem encontrar o Zé...
Nesses 17 ou 18 anos que separam a melancólica ida ao Elétrico, Mojica foi redescoberto. Em boa parte por causa de outro André, também ex-Bizz. A divertida e completíssima biografia "Maldito", escrita por André Barcinski e Ivan Finotti, botou, em certa medida, Zé do Caixão na pauta jornalística. Mais do que isso: Barcinski, que já havia feito o link entre o diretor e a cultuada distribuidora americana Something Weird, também realizou premiado documentário sobre Mojica. Na América, Zé do Caixão virou Coffin Joe e conquistou um número razoável de admiradores.Todas essas oportunidades juntas não deram em coisa alguma para o diabo brasileiro. Mojica continuou pingando nos programas de TV e sonhando com um novo longa-metragem que nunca chegava. Nunca até ganhar o grande prêmio em um concurso de roteiros e viabilizar seu projeto de, pasme, 1966: "Encarnação do Demônio"!
O filme fecha a trilogia iniciada pelos ótimos "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" (1964) e "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver" (1966). O plot continua de onde o ex-coveiro Zé do Caixão tinha parado: o homem quer gerar o filho perfeito para sucedê-lo e continuar sua linhagem de sangue de tocar o terror nesse mundo de marionetes humanos. Parece estranho? Não se espante, a filosofia "mojiquiana" é bastante singular.
O resultado superou as expectativas e, provavelmente pela primeira vez na carreira, o diretor recebeu elogios de todas as partes.
Para mais detalhes sobre o filme, vale uma visita ao blog Cine RP. Aqui, me limito a rápidas considerações.
"Encarnação do Demônio" poderia - e deveria - ter arrebatado o público jovem que se esbalda com franquias como "Jogos Mortais" e "O Albergue". O filme é sangrento, sádico, explícito e bizarro na dose exata. Com um orçamento pífio para os padrões internacionais, a brava gente envolvida nessa produção saiu-se com uma obra de acabamento muito bom, direção de arte e efeitos especiais bem decentes.

"Encarnação do Demônio" não caiu em dois grandes riscos: revelar o possível cansaço de um diretor veterano ou resultar em algo acidentalmente engraçado/constragendor. Muito longe disso.
O roteiro é esperto e rejuvenesceu a idéia do personagem Zé do Caixão, transpondo com muita eficiência suas doideiras para o mundo atual. Mérito do próprio Mojica, que juntou-se a dois jovens talentos brasileiros: o diretor de curtas de terror Dennison Ramalho e o produtor e diretor Paulo Sacramento, do cultuado "O Prisioneiro da Grade de Ferro".
Com tudo isso, "Encarnação do Demônio" revelou-se uma aposta inteligente. Não apenas fez sua contribuição para revitalizar o moribundo cinema de gênero no Brasil (embora as fracas bilheterias causem desgosto), mas, acima de tudo, deu a José Mojica Marins o maior reconhecimento que este poderia receber em vida: terminar sua carreira em grande estilo. Ele merece.





