quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A vida sem música é um erro

A frase é de Nietszche. E quando o filósofo fez tal afirmação, com certeza não imaginava que suas idéias seriam usadas, mais de um século depois, para validar a música do Metallica.

Tampouco imaginava este escriba que no curso de uma semana seria perseguido pela banda americana em música e letra. E como desde o fim do grupo, em 1986, perdi o interesse por eles, suponho que devo considerar tal perseguição um problema.

A história começou com o lançamento do primeiro álbum do Metallica em 5 anos. Continuou com uma esquecida banda brasileira de metal. E, acredite, terminou de forma bizarra, na seção de filosofia de uma livraria. Tudo em uma semana.

Abaixo tento concatenar as idéias…

Ouvi “Death Magnetic” da forma que Lars Ulrich adoraria - em MP3 - e portanto sem o suporte ideal para um julgamento justo. Mas a impressão inicial é que, por mais que a banda tenha se esforçado para recuperar a essência, algo simplesmente não funciona mais. E o problema é que essa decisão de buscar o passado mais parece fruto de uma estratégia de marketing, tal como "St Anger", um disco gerado à fórceps.



Rick Rubin, o produtor que registrou os grandes clássicos do Slayer, o multiplatinado “Blood Sugar Sex Magic”, dos Chili Peppers, além de outros fenômenos, foi chamado para substituir o defasado Bob Rock e salvar a lavoura.

A idéia de Rubin, não tenha dúvida, foi fazer a banda estabelecer uma conexão entre o que é hoje e o que foi nos anos 80. As canções são longas o suficiente para lembrarmos do arrastado “And Justice for All”. O problema é que o grupo não sabe bem como preencher músicas de 8 minutos com a consistência de outrora. Mudanças de tempo, pilhas de riffs e tentativas de (re)produzir solos épicos terminam em exercícios inócuos de saudosismo.

E há de se entender: o que ainda existe de verdade nos 3 remanescentes do Metallica original? Milionários e entediados, eles mostraram no filme “Some Kind of Monster” que, sozinhos, teriam matado um ao outro se assim pudessem. Entre um terapeuta mala, um produtor obsoleto e a suposta ressurreição pelas mãos de Rubin, é tudo sobre terceiros.

O Metallica é uma holding que fatura milhões e gera empregos. Mas, perceba a contradição, sucesso e fortuna transformaram os integrantes do Metallica em pessoas que os fazem piores músicos.

James Hetfield, uma espécie de neo-ícone redneck, adquiriu irritantes cacoetes vocais desde o “black album” e, pelo jeito, pretende levá-los para a sepultura. Kirk Hammett é fisicamente incapaz de superar qualquer riff ou solo que tenha criado até o fim do grupo, em 1986. Lars Ulrich, primeiro opositor ao download de música, sempre foi o mais limitado entre os bateristas das famosas bandas de thrash metal e está ainda mais econômico. Rob Trujillo, por sua vez, ganhou um cheque de 1 milhão de dólares na admissão, mas não tem espaço para fazer o que fazia no Suicidal – e também não é melhor baixista para o Metallica que um dia foi Cliff Burton.

Essas pessoas não parecem mais capazes de gravar um grande álbum. Ainda que, confesso, “Death Magnetic” seja o primeiro álbum do Metallica que ouço, na íntegra, desde 1991. “Load”, “Reload”, “Download”, “Upload” e o que valha, não me interessaram minimamente. O que ouvi de “St. Anger” pareceu-me um pastiche.

Portanto, em comparação aos sucessos comerciais de sua época de ouro nos negócios, “Death Magnetic” nem é tão ruim. Mas é como se sua existência não fizesse a menor diferença. Nada nesse disco chega perto da sofisticação e da energia de “Ride the Lightning” ou “Master of Puppets”.

Para piorar, em meio a audição de "Death Magnetic" lembrei-me de um disco que não ouvia há quase 2 décadas. Trata-se de “Into the Strange”, do finado quarteto de Belo Horizonte, Mutilator.


Vinte anos após seu lançamento e quase o mesmo tempo desde minha última audição, foi surpreendente relembrar a audácia da banda. Gravado com os parcos recursos da época e com instrumentos que, nem de longe, se equiparam àqueles que andam nas mãos dos rockeiros brazucas de hoje, “Into the Strange” é repleto de climas, solos atrás de solos, letras interessantes e, em diversos momentos, veja só, uma descarada inspiração em “Master of Puppets” – ápice criativo do Metallica.

Mesmo sem a metade da técnica dos americanos, os “belzontinos”, quando analisados sob a perspectiva do tempo, têm algo a seu favor: fizeram o que fizeram na época certa e acreditando naquilo para além de planilhas, gráficos de vendas e decisões de uma holding.

O Mutilator não gravou mais nada depois de “Into the Strange” e desapareceu na poeira do tempo. Seu principal integrante chegou a ter outra banda com o nome de Chemako. Mas dizem, e não apurei, que o músico já é falecido há alguns anos.

E perdido em estranhas ilações entre uma banda esquecida das Minas Gerais e a mais popular banda de rock pesado do planeta, dou de cara com um título esdrúxulo no setor de filosofia de uma livraria: “Metallica e a Filosofia”.


Num atabalhoado esforço para validar as letras e conceitos da banda de San Francisco, um grupo de “filósofos” cita de Nietzsche a Platão, sem o menor constrangimento, para analisar canções como “Motorbreath”, “One” e “Welcome Home (Sanitarium)”.

Trata-se de um besteirol publicado – e mal revisado – no Brasil pela editora Madras e que serve como item bizarro de coleção para aquele fã com algum senso de humor negro. Não é meu caso. Ainda que, como o filósofo alemão, eu acredite que a vida sem música seja mesmo um erro.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Saravá, meu pai!

Deu no portal Globo.com:

"Junior Lima, irmão da cantora Sandy, acaba de anunciar a formação de uma nova banda batizada de Nove Mil Anjos. O grupo reúne Junior na bateria, Champignon (ex-Charlie Brown Jr.) no baixo e Peu Sousa (ex-Pitty) na guitarra. Péricles Carpigiani, ou Perí, é o vocalista".

A notícia é complementada com a informação de que a banda está em Los Angeles, concluindo as gravações do primeiro disco. Apesar de estarem na terra do rock, o produtor é argentino.

A cereja do bolo é assistir a um despretensioso videozinho de "apresentação" da banda, que a rigor não apresenta coisa alguma.

O baixista-dos-sonhos-da-mtv Champignon surge primeiro, fazendo suas habituais micagens, que alguns chamam de beat box. Ele diz que são a banda Nove Mil Anjos e estão em Los Angeles gravando um disco. "Vem muito barulho por aí!". Junior - de moicano - junta-se a ele e ambos caem na risada: "Los Angeles, Hollywoooood!".

Aquelas bobagens típicas de bandas de rock. Você já deve ter visto os Chili Peppers ou os Beastie Boys fazendo micagens do tipo, tão idiotas quanto, mas eles têm a música pra se garantir. Dos tais Nove Mil Anjos, ufa, ainda não se sabe nada.

O ex-Pitty Peu Sousa, não satisfeito, puxa o refrão do clássico de Neil Young, "Hey hey, my my" pra dar o recado: "Hey hey, my my / Rock and roll can never die". E Champignon acompanha com o beat box que, acreditem, o fez famoso.

É engraçado ver Junior no meio daquelas pessoas. Criado em berço esplêndido sob uma educação de valores sertanejos, o moleque cresceu, largou a saia da irmã e montou uma banda de "rock". Seu jeito de bom menino não combina em nada com o estilo malandro-bobo-de-Santos do Champignon. O de Chorão combinava e muito bem.

Peu Sousa, que andou perambulando pela banda de apoio de Marcelo D2 e por um falido De Falla, aproveita a onda. Todos, aliás, só têm a ganhar com a notoriedade do ex-companheiro da Sandy.

Milionário, bem sucedido entre o público teen e com estrada no show business nacional, Junior é a estrela solitária que deve ter rendido ao grupo uma gravação em LA. E, com certeza, o gancho para as assessorias de imprensa promoverem o "media blitz" que acompanharemos nos próximos meses.

Mas o que o ex-cantor de "Maria Chiquinha" tem a ganhar com isso? Uma suposta credibilidade para a fase adulta de sua carreira.

Tenho até certa complacência com o rapaz - sem ironia. Não deve ser fácil se desvincular de tantas aparições, desde tão cedo, nos piores e mais populares programas de tevê do Brasil. A superexposição fez de Sandy e Junior produtos perfeitos para o consumo da família brasileira. Ele vinham embalados com aquela assepsia típica dos produtos artísticos da Xuxa, aquela simpatia de plástico dos entrevistados do Faustão, aquela aura cristã sertaneja que topa, numa boa, um pout-pourri ao lado do padre Marcelo Rossi.

Como se livrar de um passado desses e entrar no "rock" com alguma dignidade? Suponho que Junior, ou seu assessor, tenham concluído que a melhor saída fosse mesmo estar ao lado de caras que são "do rock". E para quem andava no ostracismo - como os novos companheiros do ex-Sandy -, é um belo emprego.

Então, não estranhe se no próximo Prêmio Multishow ou no VMB você der de cara com os Nove Mil Anjos (10,000 Maniacs?) representando o rock nacional.

E eles, com certeza, agirão como completos panacas - fazendo micagens como as do vídeo abaixo - e te trarão a incomôda sensação de vergonha alheia.

Mas, tudo bem. "Rock and roll can never die", não é mesmo?