Tampouco imaginava este escriba que no curso de uma semana seria perseguido pela banda americana em música e letra. E como desde o fim do grupo, em 1986, perdi o interesse por eles, suponho que devo considerar tal perseguição um problema.
A história começou com o lançamento do primeiro álbum do Metallica em 5 anos. Continuou com uma esquecida banda brasileira de metal. E, acredite, terminou de forma bizarra, na seção de filosofia de uma livraria. Tudo em uma semana.
Abaixo tento concatenar as idéias…
Ouvi “Death Magnetic” da forma que Lars Ulrich adoraria - em MP3 - e portanto sem o suporte ideal para um julgamento justo. Mas a impressão inicial é que, por mais que a banda tenha se esforçado para recuperar a essência, algo simplesmente não funciona mais. E o problema é que essa decisão de buscar o passado mais parece fruto de uma estratégia de marketing, tal como "St Anger", um disco gerado à fórceps.

Rick Rubin, o produtor que registrou os grandes clássicos do Slayer, o multiplatinado “Blood Sugar Sex Magic”, dos Chili Peppers, além de outros fenômenos, foi chamado para substituir o defasado Bob Rock e salvar a lavoura.
A idéia de Rubin, não tenha dúvida, foi fazer a banda estabelecer uma conexão entre o que é hoje e o que foi nos anos 80. As canções são longas o suficiente para lembrarmos do arrastado “And Justice for All”. O problema é que o grupo não sabe bem como preencher músicas de 8 minutos com a consistência de outrora. Mudanças de tempo, pilhas de riffs e tentativas de (re)produzir solos épicos terminam em exercícios inócuos de saudosismo.
E há de se entender: o que ainda existe de verdade nos 3 remanescentes do Metallica original? Milionários e entediados, eles mostraram no filme “Some Kind of Monster” que, sozinhos, teriam matado um ao outro se assim pudessem. Entre um terapeuta mala, um produtor obsoleto e a suposta ressurreição pelas mãos de Rubin, é tudo sobre terceiros.
O Metallica é uma holding que fatura milhões e gera empregos. Mas, perceba a contradição, sucesso e fortuna transformaram os integrantes do Metallica em pessoas que os fazem piores músicos.
James Hetfield, uma espécie de neo-ícone redneck, adquiriu irritantes cacoetes vocais desde o “black album” e, pelo jeito, pretende levá-los para a sepultura. Kirk Hammett é fisicamente incapaz de superar qualquer riff ou solo que tenha criado até o fim do grupo, em 1986. Lars Ulrich, primeiro opositor ao download de música, sempre foi o mais limitado entre os bateristas das famosas bandas de thrash metal e está ainda mais econômico. Rob Trujillo, por sua vez, ganhou um cheque de 1 milhão de dólares na admissão, mas não tem espaço para fazer o que fazia no Suicidal – e também não é melhor baixista para o Metallica que um dia foi Cliff Burton.
Essas pessoas não parecem mais capazes de gravar um grande álbum. Ainda que, confesso, “Death Magnetic” seja o primeiro álbum do Metallica que ouço, na íntegra, desde 1991. “Load”, “Reload”, “Download”, “Upload” e o que valha, não me interessaram minimamente. O que ouvi de “St. Anger” pareceu-me um pastiche.
Portanto, em comparação aos sucessos comerciais de sua época de ouro nos negócios, “Death Magnetic” nem é tão ruim. Mas é como se sua existência não fizesse a menor diferença. Nada nesse disco chega perto da sofisticação e da energia de “Ride the Lightning” ou “Master of Puppets”.
Para piorar, em meio a audição de "Death Magnetic" lembrei-me de um disco que não ouvia há quase 2 décadas. Trata-se de “Into the Strange”, do finado quarteto de Belo Horizonte, Mutilator.

Vinte anos após seu lançamento e quase o mesmo tempo desde minha última audição, foi surpreendente relembrar a audácia da banda. Gravado com os parcos recursos da época e com instrumentos que, nem de longe, se equiparam àqueles que andam nas mãos dos rockeiros brazucas de hoje, “Into the Strange” é repleto de climas, solos atrás de solos, letras interessantes e, em diversos momentos, veja só, uma descarada inspiração em “Master of Puppets” – ápice criativo do Metallica.
Mesmo sem a metade da técnica dos americanos, os “belzontinos”, quando analisados sob a perspectiva do tempo, têm algo a seu favor: fizeram o que fizeram na época certa e acreditando naquilo para além de planilhas, gráficos de vendas e decisões de uma holding.
O Mutilator não gravou mais nada depois de “Into the Strange” e desapareceu na poeira do tempo. Seu principal integrante chegou a ter outra banda com o nome de Chemako. Mas dizem, e não apurei, que o músico já é falecido há alguns anos.
E perdido em estranhas ilações entre uma banda esquecida das Minas Gerais e a mais popular banda de rock pesado do planeta, dou de cara com um título esdrúxulo no setor de filosofia de uma livraria: “Metallica e a Filosofia”.

Num atabalhoado esforço para validar as letras e conceitos da banda de San Francisco, um grupo de “filósofos” cita de Nietzsche a Platão, sem o menor constrangimento, para analisar canções como “Motorbreath”, “One” e “Welcome Home (Sanitarium)”.
Trata-se de um besteirol publicado – e mal revisado – no Brasil pela editora Madras e que serve como item bizarro de coleção para aquele fã com algum senso de humor negro. Não é meu caso. Ainda que, como o filósofo alemão, eu acredite que a vida sem música seja mesmo um erro.