Semana passada aconteceu a edição 2008 do evento. Um tragicômico testamento que a música pop brasileira faliu de vez.
Mas nada é por acaso. Há cerca de 2 anos a MTV Brasil criou um factóide. A emissora distribuiu releases avisando meio mundo que deixaria de exibir o produto que a consagrou: os vídeo-clipes.
A estratégia mercadológica do canal já era há muito conhecida e os clipes continuaram sendo exibidos nos parcos horários que lhes eram reservados. Nada de novo.
Seja como for, por trás da falsa notícia do banimento dos clipes na MTV Brasil existe uma óbvia realidade: esse mundo conectado e digital gerou um tipo de (má) formação no público jovem, esse bicho estranho com déficit de atenção. A música tornou-se a trilha sonora para as horas no computador. Com muito custo, os arquivos viram um CD-R. Ou o ringtone da vez. O novo fã de música gosta mesmo é do artista, da roupa do artista, da tatuagem do artista.
Fruto dessa realidade, a edição de 2008 foi um marco. A premiação em si, você sabe, só existe para manter o evento que é uma das boladas publicitárias da casa. Com a mirrada produção de clipes atual, as categorias são genéricas. Uma espécie de Prêmio Multishow melhorado.
Sem a necessidade de critérios algo técnicos, o VMB 2008 consagrou mais uma vez o emo – praga que mostra-se mais resistente do que se julgava. Das poucas categorias hoje existentes, o NX Zero foi o maior ganhador. Antes fosse por algo como “Melhor banda que canta chorando” ou “Melhor banda que chora cantando”, mas sua torturante “Pela Última Vez”, acredite, foi eleita o hit do ano. Que tenha sido, de fato, pela última vez.
O evento também é uma espécie de quem é quem no pop rock nacional. Os dinossauros do BRock estão lentamente se extinguindo. Sentados na platéia, com sorrisos amarelos, assistem a uma turma que fugiu da Malhação tomando seu lugar.
Algumas bandas de safra mais recente também parecem rebaixadas à Segunda Divisão do rock nacional. É o caso de CMP22 e Charlie Brown Jr., que hoje estão à sombra dos novos emos.
Claro que, com prêmio ou sem, na Série A ou na B, ninguém perde a pose. A festa acontece em São Paulo, mas é como se fosse Los Angeles. O show business brazuca é bem mixuruca – de uma dúzia de artistas, quase sempre os mesmos –, mas tenta-se manter um glamour extraterreno.

Só que a falta de charme é também musical. Se o VMB escolher a desculpa de que apenas irradia o que acontece na música brasileira, há de se lembrar que o evento já abrigou shows de boas bandas em bons momentos. Planet Hemp, Sepultura, Racionais MCs e Chico Science & Nação Zumbi já passaram por ali. Os novos tempos são bicudos.
Não assisti à apresentação de Ben Harper & Vanessa da Matta, nem à de Marcelo D2. A estréia dos Nove Mil Anjos – previsão do Caixa Preta confirmada em grande estilo – vi só no YouTube. Uma pataquada apresentada por um dos cachorros grandes como superbanda. Peu Souza, veja só, virou, nas palavras do apresentador convidado, o responsável por alguns dos maiores hits do rock nacional em todos os tempos…
Mas se a empreitada rockeira de Junior Lima pode ser chamada de tola, como classificar a excrescência musical dos playboyzinhos curitibanos do tal Bonde do Rolê?
E que tal mais uma das intermináveis canjas de Pitty, com suas caras e bocas de sempre, com o som do tamanho de um barzinho da 13 de Maio?
Só que teve mais. O incensado Bloc Party – mais uma invenção inglesa dos anos 00 –, lançou mão de um constrangedor recurso: o velho playback à la Cassino do Chacrinha. Nem o “rock on, man!”, de Dinho Ouro Preto, os estimulou... Uma metáfora que resume tudo. Genial.
Mas quem sabe faz ao vivo, certo? Errado. O encontro abominável de Chitãozinho & Xororó com Fresno que o diga. Os sertanejos, com certeza, já viveram dias melhores - no mínimo, do ponto de vista comercial. Aceitar uma parceria de tão baixo quilate só mesmo com muita coca-cola.
Por fim, um clipe com 5 minutos do mais puro terror. Uma gracinha inventada pelo bom comediante Marcelo Adnet transformou-se num Live Aid mongolóide que diz muito sobre o estado das coisas na música brasileira.
Caem as máscaras e o show bizz sílvicola revela-se em sua mais gloriosa mediocridade: artistas de cuia na mão pagando um verdadeiro King Kong para o canal a quem – só pode ser – eles devem até as calças.
Se você perdeu tudo isso, não se preocupe, a MTV vai dar um show de reprises. Fique de olho e separe a cerveja. Você vai precisar.