quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Disco é cultura

De acordo com a GloboNews, a indústria musical tratou o mês de dezembro como o “último Natal do CD”. Não é o caso, ainda, de decretar a morte do formato sob o ponto de vista prático, mas a constatação tem um caráter mercadológico que representa o fim de uma era. A era do disco.

Há 5 ou 6 anos, a obsolescência do CD era uma hipótese um tanto remota e mais ainda era a idéia de que a indústrial fonográfica pudesse ruir. Mas isso está acontecendo sob nossos narizes – ou pela indiferença de nossos ouvidos.

Tudo que se tinha para dizer sobre a popularização da música digital, pela ótica tecnológica, já foi dito. Escrevi, há um ou dois anos, para a própria Rock Press, que essa portabilidade propiciada pelo MP3 é reflexo do modelo de vida dos anos 00, onde parar para ouvir um CD na íntegra é luxo ou perda de tempo. A música tornou-se acessório, uma trilha sonora para as conversas no MSN, para o tédio nos escritórios ou para a impaciência no trânsito. Nada além.

Criar formas de transportar a música para que não se “perca tempo” parece a idéia por trás dos últimos suportes – inclusive o CD, que propiciou a reprodução no computador, no discman e no automóvel, sem a necessidade de trocar o LP pela fita cassete, mas que, afora os objetivos, manteve a viabilidade comercial do disco.

Antes de cair na tentação de me repetir e terminar reproduzindo todas as colocações do texto citado, vamos ao que de fato interessa: tomar uma posição. Sim, porque muito se fala da democratização da música proporcionada pelo download irrestrito versus as perdas financeiras enfrentadas por músicos e gravadoras. Mas a questão aqui pretende ser tratada pelo viés sociocultural: qual a importância da música gravada como registro de seu tempo, como substituir a idéia de álbum que vem norteando a música popular há mais de 40 anos e o que fazer pela boa formação de novos ouvintes.

Comprar essa briga agora é mais do que nadar contra a maré. É parecer ridículo e deslocado da realidade. O Metallica, por motivos que à época pareceram tacanhos, e talvez o fossem, levantou-se contra o pioneiro Napster e foi achincalhado por fãs e outros artistas. Então o que dirá requentar esse discurso em 2009, com a prática do download já amplamente disseminada? O negócio agora é apenas sair de cima do muro. De que lado você está, afinal: dos que acham que a música digital é uma bênção ou uma maldição?

Esses dias, de onde menos esperava, ouvi uma declaração curta e bastante sincera acerca da questão. Em seu programa de entrevistas – exibido em São Paulo pela TV Gazeta –, Ronnie Von interrompeu seu convidado, um divulgador musical que contava causos insípidos, assim que ouviu a palavra mágica “disco”. O ex-cantor de “rock” psicodélico e ídolo da Jovem Guarda encheu a boca pra dizer: “Disco! Isso, sim. Vinil! Que coisa boa. O disco era impirateável”. E não é verdade? Ronnie disse o óbvio, mas às vezes o óbvio é o bastante.

A música era importante na vida das pessoas porque, fora a conjuntura socioeconômica favorável, ainda era algo restrito. O disco era um objeto palpável que possuía valor comercial. E agora a música, sem a importância de outra época e em oferta gratuita e abundante, tornou-se banal. Não apenas porque é oferecida em quantidade irreal (informação demais é informação nenhuma), mas também porque a qualidade é baixa. Já disse em outra ocasião e repito: as pessoas estão se limitando a ouvir arquivos. E estes arquivos, via de regra, já chegam ao destino final achatados e são reproduzidos por miseráveis caixas de som chinesas para computador.

Se parece anacrônico imaginar que alguém vá queimar um CD para cada álbum obtido em forma digital, também parece significativo lembrar que a venda online de música esteja caindo. As pessoas que já não pagavam pelo formato físico, passaram a economizar seus trocados também nos iTunes e Sonoras da vida. A informação é do jornal Metro e foi publicada antes da crise econômica global, portanto não tem relação direta com o queda no consumo. É, apenas e lamentavelmente, um sintoma da queda de interesse.

Li, aqui mesmo no portal RP, que Gene Simmons andou dizendo que o “mercado está uma bagunça” e, indiretamente, culpou os fãs pela demora em gravar um novo álbum do Kiss. Gene pensa mais em dinheiro do que em música, mas não deixa de ser sintomático que alguém que fez carreira lançando discos defina o mercado atual como “uma bagunça”. Gravar pra quê?

Com a desvalorização artística e comercial do disco, os efeitos começam a ser vistos em todo o lugar: cai drasticamente o nível das gravações (se o consumidor ouve arquivos, não precisa de nada melhor), redes de lojas – como a famosa Tower – baixam as portas, selos independentes têm sua existência ameaçada e toda a cadeia produtiva e criativa antes usada para gerar o produto maior, aquele que balizava a indústria, o fã e o crítico, passa a correr riscos.

Em um edição qualquer de 2008, a revista de propaganda Meio & Mensagem publicou notícia a respeito do interesse da Microservice – um dos maiores fabricantes de CDs e DVDs do Brasil – em ingressar no aquecido mercado de motocicletas… Significa algo, não?


Longe da esfera corporativa, cabe aqui uma experiência pessoal e que ilustra este novo cenário aplicado à realidade do dia-a-dia. Uma das mais charmosas lojas de discos de São Paulo estava situada no bairro onde passo a maior parte do meu tempo. Pelo menos uma vez por mês, eu fazia uma visita à Nuvem Nove para comprar algum CD. Não só porque eu, naturalmente, me interessava em adquirir tais títulos, mas também para dar minha parcela de contribuição e tentar manter a loja viva – ainda que jamais tenha ouvido dizer que passasse por qualquer dificuldade financeira. Foi ali que, além de comprar discos de Vernon Reid, Buzzcocks, Isaac Hayes e edições do ótimo Poeira Zine, batia papo sobre música com os simpáticos funcionários e frequentadores.

Toda vez que passava com um amigo em frente da loja, dizia: “Aproveitem para curtir esse lugar antes que feche”. Pois aquele comércio que lembrava o de John Cusack em “Alta Fidelidade”, encerrrou as atividades no primeiro trimestre de 2008. Lamento ter acertado a previsão, mas outros também sentiram a ausência daquele ponto de referência.

Fiquei sabendo do fim da Nuvem Nove por intermédio de uma comovente coluna de Nando Reis no Estadão. O músico, criado ali no Itaim Bibi, bairro que acolhia a loja, descreveu com sensibilidade o que para ele é um sinal dos tempos. Para saber mais sobre o fechamento da loja, assista a esse documentário aqui.

E se este é apenas um exemplo próximo e que me é mais caro, não faltam outros. No momento em que escrevo este post, estou envolvido com um projeto para revitalizar um dos selos punks mais ativos do país e evitar que tenha o mesmo fim da Tower Records ou da Nuvem Nove.

Não trata-se de negar os aspectos positivos da inclusão digital, de defender o modelo predatório das grandes corporações do disco e, muito menos, de cogitar a retrógrada lei de criminalização do download. O Caixa Preta apenas assume sua impopular posição à favor da cultura do disco e sugere a reflexão dos que vivem dentro da bolha digital.

Como sempre, este texto tem uma enquete correspondente. Participe!