terça-feira, 12 de maio de 2009

Uma noite com o Big Voice

Em 1998, Ike Willis, lendário integrante de umas mais importantes encarnações da banda de Frank Zappa, aquela que compreende o fim dos anos 70 e toda a década de 80, apresentou-se no Brasil. Quem esteve no show garante ter sido aquela, uma experiência sensacional. E quem, como eu, fez a asneira de perder, até hoje se lamenta.

Mas não é que, ao espiar a lista de atrações da edição 2009 da Virada Cultural, deparo com o nome de Ike? Um desses raros casos de dinheiro público bem gasto. Mister Big Voice estava escalado para tocar na Praça da República, no domingo, às 17h30, ao lado da incrível Central Scrutinizer Band – uma das, ou talvez a melhor banda-tributo a Frank Zappa no planeta. Porém, o show que era imperdível, ou duplamente imperdível para quem não tinha visto Ike em sua primeira passagem por aqui, acontecia num cenário que não é o meu favorito: uma multidão (desinformada) em um local que não permite grande intimidade entre banda e público. Meu instinto disse que era melhor esperar alguma apresentação extra. E assim foi feito.

No último sábado, dia 9 de maio, Ike Willis repetiu a dose numa simpática casa chamada Aldeia Turiassu. A comunidade zappeira compareceu em número relativamente bom e recebeu em troca uma apresentação absolutamente bombástica.

Sempre ouvi dizer sobre os shows intermináveis do Grateful Dead na década de 70, mas nada podia me preparar para as quase 4 horas – isso mesmo! – de apresentação.

Ike subiu ao palco no seu estilo easy going e logo assumiu a posição de mestre de cerimônias. Apresentou cada um dos 8 integrantes da banda por nome e sobrenome, sem colar, e ainda complementou: “Nós somos a Central Scrutinizer Band”. Clara demonstração da química e da confiança que tem nos músicos brazucas.

Mister Willis mantém sua famosa voz de trovão e caprichou na dose em canções da obra-prima Joe’s Garage. A execução monumental de “Catholic Girls”, “Fembot in a Wet T-Shirt ” e “Why Does it Hurt When I Pee?” levaram a platéia o mais perto que se pode chegar de um show de Zappa sem Zappa.

Com um público totalmente fanático – a ponto de se abraçar e comemorar quando o clássico favorito era executado – e conhecedor de inglês, Ike “Thing Fish” Willis desandou a papear e contar causos. Pediu desculpas pelos 11 anos sem aparecer no Brasil e confidenciou que a Central Scrutinizer Band o “autorizou” a trazer a esposa na viagem. E a pequena homenagem em “Montana”, que teve o refrão alterado para “I’m moving to São Paulo soon”, dá a medida da curtição.

O talento da Central Scrutinizer, após tanto tempo de estrada, ainda parece impressionar Ike. Ele não perdia a oportunidade de cantarolar “great musicians” entre uma faixa e outra. Mas não era pra menos: o discreto guitarrista Rainer Pappon era um que estava com o diabo no corpo! O homem reproduziu solos com precisão matemática e sensibilidade zappiana. E o resto da banda acompanhava o virtuosismo com a simpatia que já virou marca registrada. O “líder” Mano Bap, então, observava Ike com os olhos brilhando, como se lembrasse, a cada minuto, que aquele sujeito ali no palco foi um dos membros mais importantes da dinastia Zappa.

Ike Willis, que volta e meia sentava numa banqueta, fumando um cigarrinho e sempre com uma toalha sobre os ombros, regia os músicos e arriscava pequenos improvisos com a malícia de quem conviveu por cerca de 15 anos com o mestre em pessoa.

Além das já citadas, muita coisa finíssima foi executada na primeira parte do set: “Peaches in Regalia”, “Andy”, “Uncle Remus”, “Florentine Pogen” e a complexa “Inca Roads”.

Não que precisasse de alguma outra faísca de magia para fazer o show especial, mas Mister Willis também sacou a sincronicidade da data: “É Dia das Mães e, como vocês sabem, os Mothers of Invention costumavam fazer apresentações especiais no Halloween ou no Dia das Mães”.


Zappa e Ike Willis ao vivo


Após um descanso de 20 minutos e lá estava a CSB de volta e ainda mais afiada. Ike fez a apresentação: “Essa é uma bela canção escrita pelo meu irmão Frank. Crianças, cubram seus ouvidos, pois ela se chama…”. E aí foi interrompido pelos scrutinizers que, de farra, o advertiam que ele não devia pronunciar o título. Willis retrucou e disse que era americano, então não ia ter grandes problemas e, enfim, anunciou “I Promise no to Come in your Mouth” (“Prometo não Gozar na sua Boca”).

Ocasionalmente, um ou outro fã mais alterado pedia alguma faixa (“Watermelon in Easter Hay”, “Whippin’ Post”, etc) e, já não me recordo como começou, mas Ike respondia na maior gozação: “you’re cheating!”. A coisa, para quem conhece os discos ao vivo de Zappa, virou uma gag recorrente no segundo set da noite.

Aos que tinham coração forte, o repertório ainda reservou “City of Tiny Lights” (“Essa música poderia ser sobre São Paulo”), “Sofa” (“Eu canto em alemão, italiano, japonês. Tudo por causa daquele cara ali” – apontando para um cartaz de Zappa) e uma absolutamente comovente interpretação de “Outside Now” que rendeu mais histórias: “Quando fomos gravar o ‘Joe’s Garage’ em 1979, a ideia era que fosse um single. A faixa-título no lado A e ‘Catholic Girls’ no B. Só que nos trancamos no estúdio e em 5 dias tínhamos escrito 21 faixas! O Frank fez algumas músicas para mim, mas a câmara de eco ficava do outro lado do estúdio e, depois de 3 meses e meio gravando o disco, minha voz estava um fiapo. Essa (‘Outside Now’) é uma das faixas compostas para mim”.

Ike, que se declarou o maior fã de Zappa do mundo, foi aplaudido a noite toda e, percebendo a sinergia do lugar, brincou: “Vocês estão se divertindo? Bem, eu acho que posso estar me divertindo esta noite… Por favor, não me deixem voltar para os EUA, mas, como eu disse, eu posso estar me divertindo”.

Com quase 4 horas de show, ainda conseguiram botar o público pra pular – ou quase isso – com “Keep it Greasey” e mais um interpretação épica de “Whippin’ Post”, dos Almann Brothers, canção eternizada por Zappa. Não fosse o bastante, o público, às 5 da manhã, ainda pediu um bis e foi atendido com “Zomby Woof”.

Uma performance colossal que, segundo anúncio de Ike, pode se repetir no “Zappa Day”, em 21 de dezembro próximo, em São Paulo. Então, fica aqui uma possível boa notícia: se você perdeu, não precisará esperar 11 anos...